O que é doce nunca amargou… Ou o sétimo mês na Eslovénia

E estamos de volta!

Antes de mais, desejo-vos um próspero ano de 2016! Enfim, aquilo que desejo a mim própria e a vocês: que vos presenteie com muita saúde, felicidade e coragem para (chegarem mais perto de) realizar os vossos sonhos; que vos proporcione tudo aquilo de que necessitam, ou, melhor ainda, aquilo que desejam!

A aventura de Serviço Voluntário Europeu terminou no passado dia 15 de Novembro de 2015 – quase que se passaram dois meses, mas esse tempo também foi necessário para digerir as vivências de um ano intenso, e reflectir sobre os passos a dar neste novo ano. Daí a ausência de notas neste blogue, que esteve quase para ser cancelado.

A verdade é que me encontro de regresso à Eslovénia, este país maravilhoso em que me sinto (também) em casa. Apesar de as aventuras agora serem a um nível diferente, não deixam de ter a sua relevância e, para dar de beber à minha sede de escrever, vão continuar a haver novas publicações No blogue de Notas!

Como balanço global da experiência de SVE e em jeito de resumo do sétimo e último mês na Eslovénia enquanto voluntária, escrevi uma carta à AgoraAveiro, associação que me enviou para o programa e que me acompanhou à distância durante todo o processo. Penso que não vale a pena repetir as ideias aqui, por isso, qualquer questão que gostassem que desenvolvesse ou esclarecesse escrevam nos comentários! É sempre um gosto poder partilhar – dar e receber – sobre experiências de voluntariado nacional e internacional!

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Diário fotográfico – semana 31

Este será o último post dos diários fotográficos que trouxeram um pouco do dia-a-dia de uma voluntária na Eslovénia. Apesar de com o tempo se terem tornado em nada parecido com um “diário”, levantam um pouco o véu para aquilo que é possível vivenciar neste país.

Aqui ficam fotos da semana de 09 a 15 de Novembro.

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09.11.2015 – A F. e eu visitámos a aula de culinária de uma Escola em Ljubljana.

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Na mesma sala: Apresentamo-vos a Sr.ª Framboesa e o Sr. Cenoura.

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13.11.2015 – Enquanto ocorriam os atentados suicidas em Paris, a F., a A., a M., a T. e eu, divertíamo-nos ao sabor deste maravilhoso licor de cereja em copo de chocolate (chamo-lhe a “ginjinha eslovena” feita pela M.)…

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… e ao som desta canção típica da ilha de Sardenha que a F. nos ensinou, e que prontamente traduzimos para esloveno e português.

 

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura… Ou o sexto mês na Eslovénia.

E, para não variar, mais uma publicação que vem atrasada. Quem espera, desespera, e parece ser notória a minha falta de investimento em manter este blogue actualizado. Ainda que goste bastante de escrever, e que o faça regularmente, escrever para alguém que não seja eu mesma ou para um propósito profissional, e ainda por cima para uma plateia “invisível” tem sido um desafio bem interessante! Não sei se manterei o blogue de pé depois do projecto de Serviço Voluntário Europeu terminar, afinal de contas, as aventuras partilhadas No blogue de notas surgiram com o propósito de registar a minha experiência enquanto voluntária. Ainda que esteja inclinada para o seu términus, o mais importante é que tem sido uma bonita forma de guardar memórias.

E sim, o projecto de voluntariado está quase a chegar ao fim. Como não podia deixar de ser, começam a surgir algumas reflexões. Não me vou estender muito. Vejo-o como uma boa decisão. Quando me candidatei ao projecto “Food for SOULidarity” da Terra Vera, nunca pensei, tampouco, que pudesse vir a ser chamada para entrevista, quanto mais seleccionada. Concorri apenas no espírito do “não perco nada por tentar”, e o resultado foi uma boa surpresa, sim.

Como já falei aqui anteriormente, a Agora Aveiro, associação parceira do projecto que me “enviou” para a Eslovénia, preparou um pre-departure training em que escrevi três cartas para a “Inês do futuro”; a primeira recebi ao fim de um mês de projecto, a segunda ao fim de três meses, e a última ao fim de seis. Em qualquer momento, não me lembrava do conteúdo de nenhuma delas pelo que, de qualquer das maneiras, foi uma surpresa reler as cartas quando as recebi. Foi, diga-se, “engraçado” receber as duas primeiras cartas, mas confesso que não contava ser tão apanhada desprevenida pela terceira delas – emocionei-me. Não digo nada de extraordinário, e talvez seja fácil de ser erroneamente interpretada por ser lida fora do contexto, mas porque foi uma boa fonte de auto-feedback-positivo que recebi de mim própria, partilho-a convosco.

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A distância, o tempo, a mudança de língua, de comida e de cultura, no fundo, de hábitos, tem sido um desafio que me proporciona aprendizagens de um valor incalculável. Uma delas foi, acho que posso dizer, a aceitação. Há coisas que são como são. E uma dessas coisas a que me refiro é a minha família. Tenho de reconhecer que aprendi e aprendo muito com todos os seus elementos. Obrigada. Sem ironismos, nem piadolas. A sério, obrigada. Pelo esforço e dedicação. Pela paciência e dores de cabeça. Pelos bons e pelos maus exemplos (as coisas más também nos ensinam muito). Há alguém que seja o filho/a filha perfeito/a? Como se costuma dizer, quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Que dizer? Eu sou eu, não sou outra pessoa, paciência! Sou fruto de várias influências, sim, e orgulho-me bastante delas, das “boas” e das “más”, porque todas me ensinaram imenso, ainda que, por vezes, não fosse fácil ver no momento o que me estavam a transmitir. Preciso de mais tempo do que a maioria das pessoas para processar a informação, mas chego lá. Se não hoje, amanhã. Se não amanhã, depois. Mas chego lá. É a vida.

Mas a verdade é que, se não fosse por a minha família ser o que é, talvez nunca me tivesse candidatado ao projecto de Serviço Voluntariado Europeu, e talvez não vos estivesse a escrever do país das paisagens dos contos de fadas. Se não fosse por a minha família ser o que é, certamente não teria alcançado as metas que alcancei até hoje. Por detrás deste aspecto de boneca de porcelana que se vai partir ao mais leve toque, não estaria uma lutadora que aprendeu a não baixar os braços. Provavelmente não teria feito metade do que fiz se tivesse tido a família que eu tanto teimei que “devia” ter – o que foi bom, porque canalizei a minha angústia (sim, senti angústia muitas vezes, não foram só os meus pais) para algo produtivo, e estou satisfeita pelo meu percurso. Isto foi só o “aquecimento”, uma preparação para os desafios e as decisões que tenho pela frente.

É caso para dizer que custou admitir isto, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Aos que são a minha família, sinto-me feliz pelas raízes que me alimentaram e pelo tronco que me sustentou, para que pudesse ser fruto. Devo-lhes muito e sinto-me verdadeiramente agradecida, ainda que nem sempre seja fácil demonstrar.

Mais uma vez, obrigada.

Diário fotográfico – semana 23

Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia: 14 a 20 de Setembro.

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14.09.2015 – Midterm evaluation do nosso projecto SVE em Ankaran.

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15.09.2015 – Fomos shadows in the night.

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16.09.2015 – Noite de bowling (não é por acaso que o meu irmão diz que nunca mais joga na mesma equipa que eu).

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17.09.2015 – Adeus, Ankaran! Olá, Kostanjevica!

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18.09.2015 – Mais azulejos da tia(-avó).

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19.09.2015 – Foi dia de panquecas e marmelada em Kostanjevica na Krki, com direito a concerto dos jovens alunos da Escola de Música de Krško, na Igreja de St. Jakob (que veio para nos iluminar a todos/as).

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20.09.2015 – Acho que ele estava a pressentir o perigo.

Fazer Serviço Voluntário Europeu ou não?… Ou o quinto mês na Eslovénia

Não. Não me esqueci de escrever no blogue. Não perdi a password. Não deixei de escrever no blogue. Acontece apenas que a minha escrita estava focada num outro objectivo: O de escrever uma candidatura ao Programa Erasmus+ para um projecto de Youth Exchange (Uuuuuh, isto parece uma coisa importante. E na realidade é, mas para ser falado num momento mais apropriado). Já não passava tantas horas sentada a escrever ao computador desde que terminei a dissertação de mestrado em 2013! Na verdade foi quase como escrever uma nova dissertação. No final, foram 39 páginas de formulário e escritas em inglês! Desculpem-me a falta de modestia, mas estou bastante (surpreendida! e) satisfeita comigo e com o meu trabalho 🙂

E sim, esta reflexão sobre o quinto mês na Eslovénia já vem um bocadinho tarde, mas mais vale tarde do que nunca. Que posso acrescentar de novo?

Quando estava a fazer estágio (tanto o curricular, como o de acesso à Ordem dos Psicólogos) o nosso Orientador, P.M., insistia muito numa coisa: «Importa-me mais o processo, do que o resultado». Ainda que consiga perceber o que ele nos queria dizer, nem sempre é fácil colocar na prática esta directiva. Os resultados costumam ser a parte mais visível, aquela que podemos mostrar aos outros e dizer se fomos ou não bem sucedidos/as. Todavia, a verdade é que esta frase ficou guardada na gaveta das “Aprendizagens para a vida”, e quando sinto o peso das preocupações com o dito resultado, páro, respiro, e volto a colocar a minha atenção no processo.


processo
pro.ces.so

[pruˈsɛsu]

nome masculino

1. modo de fazer uma coisa; norma; método; sistema
2. ato de proceder ou andar
3. processamento
4. seguimento; decurso

processo in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015. [consult. 2015-10-06 16:41:08]. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/processo


Desde que me instalei na Eslovénia que tenho recebido muitas mensagens de amigos/as e outros/as curiosos/as acerca da aventura de fazer Serviço Voluntário Europeu. Será que vale a pena? Dar prioridade à escolha do país ou do projecto? E o dinheiro de bolso, chega? Como é falar inglês ou ter de aprender uma língua diferente? Há choque cultural? E as saudades de casa e da comidinha da mãe?

Já sabem a minha resposta a todas estas perguntas: Vale a pena, sim. Porém, não fiquem à espera de milagres. Mesmo que aterrem num dos países de paisagens dos contos de fadas, não se esqueçam que no enredo não estão só príncipes em cavalos brancos a cavalgar até ao castelo e a subir à torre mais alta. Os ursos e as bruxas também fazem parte da história. Quero com isto dizer que a experiência é composta por aspectos maravilhosos – o acesso protegido a um conjunto de aprendizagens formais, informais e não-formais, os desafios a que nos sujeitamos e que somos capazes de superar, as viagens que fazemos e o contacto com a natureza e uma cultura diferentes das que estamos acostumados, os/as amigos/as que fazemos e a promessa de manter contacto para o resto da vida… Tudo isto e muito mais pode ser considerado o nosso heróico príncipe cavalgante -, que são complementados com outros aspectos menos brilhantes, mas também eles essenciais – quando as coisas correm menos bem, quando as saudades da comida apertam, quando não há nada para fazer ou há trabalho demais, quando os resultados não foram os que ambicionávamos, quando os/as amigos/as que fizemos aqui se vão embora e nos sentimos sem rede outra vez… Qualquer um destes exemplos pode ser um urso que nos quer atacar ou uma bruxa que teima em lançar o seu feitiço.

Está um texto muito infantil? É para que percebam numa linguagem simples que a vida é mesmo assim: Nem tudo é bom, nem tudo é mau, mas a combinação dos dois elementos traz algo de fantástico que nos ajuda a evoluir e a abandonar os contos de fadas: O processo! Se vale a pena? Como diria Fernando Pessoa, «tudo vale a pena/ Quando a alma não é pequena». Se sentem a vontade sincera de embarcarem nesta aventura, pois recomendo que o façam – devidamente equipados para o que der e vier. Se apenas sentem uma vontade assim-assim, bom, deixem-se surpreender – pode ser que encontrem coisas boas, ou, se não, podem sempre cancelar o programa e regressar à base. Ninguém vos vai julgar por isso. O que diria ser o mais importante, na minha opinião, é isso mesmo: o processo, as vivências que só vocês tiveram e ninguém vos pode tirar, as aprendizagens que fizeram, as pessoas que conheceram e vos marcaram. Mesmo quando não corre como esperávamos, às vezes melhor, outras vezes pior. É a nossa experiência. E tem muito valor.

Diário fotográfico – semana 21

Pedaços da semana de 31 de Agosto a 6 de Setembro.

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31.08.2015 – Caminhando pelos caminhos de Santiago em Kostanjevica na Krki.

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01.09.2015 – Diz que o dia mundial da criança é no primeiro de Junho, mas bem que podia ter sido hoje -a dar asas à criatividade musical.

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02.09.2015 – Num campo de cultivo de canhamo (cannabis industrial).

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03.09.2015 – As sessões de “Conversas em português” voltaram à Biblioteca de Kostanjevica na Krki, e com elas as canções da Beira Baixa.

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04.09.2015 – Para além da apresentação pública da Iniciativa Local de Kostanjevica na Krki, o meu querido D., amigo de longa data, irmão por afinidade, celebrou o seu 25.º aniversário.

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05.09.2015 – As gatas a mostrarem como fazem para se aquecer no frio que aí vem.

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06.09.2015 – A curiosidade matou o gato.

Hora de fazer um balanço… Ou o quarto mês na Eslovénia

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Já dizia Einstein que o tempo é relativo. Há quatro meses andava num frenesim que quase me deixou doente só de pensar que ia passar sete meses num país estrangeiro, longe da família e dos amigos. Na altura estava com receio das mudanças que esta aventura me poderia trazer – uma coisa é certa, é impossível voltar atrás neste momento e nem sequer é sensato achar que, no final do projecto, a vida vai voltar ao que era dantes. Impressionante é como um simples e-mail pode provocar tamanha transformação. Ainda bem que assim foi.

Ontem recebi a segunda carta que escrevi para mim mesma e que marca o meio do projecto de Serviço Voluntário Europeu (SVE) em que estou a participar, aquando do pre-departure training que a Agora Aveiro organizou no princípio do mês de Abril. Estes quatro meses têm sido uma lição a vários níveis, sobretudo pessoal, familiar e profissional. Muito de mim, e daquilo que eu conhecia sobre mim, tem sido colocado em causa, um desafio que me ajuda a reflectir sobre o que quero fazer e como realizar esses sonhos. A gestão de expectativas, de diferentes culturas, de línguas estranhas e das saudades é uma experiência que o SVE proporciona e que recomendo a todos os jovens. O tema do projecto em que estou inserida – Food for SOULidarity, organizado pela Terra Vera, relacionado com a promoção da produção e comercialização local de alimentos – tem-me permitido reencontrar-me comigo própria, com as minhas origens (ainda que tão longe de casa), e com os objectivos que traço para o meu futuro. Tem, ainda, contribuído para me tornar mais resiliente e, em vez de desistir, dar espaço para “respirar” e procurar soluções ou alternativas. Não me sinto uma pessoa diferente, nem renovada. Continuo a ser, simplesmente, a Inês. O foco está em (aprender a) desfrutar desta existência única e tirar partido dela – afinal de contas, acredito que cada pessoa tem o seu papel a desempenhar no mundo.

Mesmo nos dias mais cinzentos e das experiências menos gratificantes, é possível retirar uma lição e aprender algo novo ou aperfeiçoar qualquer coisa que já existe. Claro que não é preciso fazer SVE para crescer, mas ajuda a intensificar a experiência quando o fazemos fora daquilo que nos é familiar. Por isso mesmo, agradeço à Agora Aveiro e à Terra Vera pela oportunidade maravilhosa que me ofereceram, e espero que os próximos meses continuem a desenrolar-se repletos de descobertas e aprendizagens no mágico país dos contos de fadas.

Diário fotográfico – semana 17

Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia: 03 a 09 de Agosto.

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03.08.2015 – Começaram as actividades ao livre para crianças de todas as idades, em Kostanjevica na Krki, organizadas pela Terra Vera – Association for Sustainable Development. A Miryam organizou para as nossas crianças uma caça ao tesouro, a identificação de folhas de árvores autóctones e a construção de barcos a partir de canas no espaço público da Gruta de Kostanjevica.

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04.08.2015 – Ainda com a presença da Miryam e aproveitando a natureza em redor da Gruta, as actividades de hoje consistiram em: recolher madeira da floresta, atear uma fogueira e assar massarocas; utilizar canas para criar um nunalca (lê-se “nunaltsa”), um instrumento musical tipicamente esloveno da zona costeira, e cantar “Moja mati kuha kafe” (ou, a minha mãe faz café); construir a avenida Škratov, com casas para as minúsculas criaturas místicas da floresta.

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05.08.2015 – Mudança de cenário e de mentores: Mateja, Samo e Ana trouxeram artes circenses, canções ancestrais eslovenas e outras tantas tradicionais africanas aos jardins da Galerija Božidar Jakac.

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06.08.2015 – A Galerija Božidar Jakac abriu as portas da sua igreja a um magnifico concerto de canções ancestrais eslovenas pelas vozes e instrumentos do Samo, da Mateja e da Ana. Além disso, as actividades contaram com a exploração de materiais reciclados para (re)produzir sons da natureza e com pinturas corporais de barro branco. {A nossa querida S. (Espanha) despediu-se de nós com muita dança e muitas selfies em modo duckface. Deixo-te votos de toda a sorte e felicidade para a etapa pós-SVE!}

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07.08.2015 – O último dia de actividades ao ar livre para crianças contou com uma caminhada pelas florestas de Kostanjevica na Krki, com destino ao rio Krka. Pelo caminho, as crianças coseram pão, experimentaram a ausência de visão e apuramento da audição para escutar o que floresta lhes diz, fizeram um piquenique à beira-rio e encerraram a semana com um concerto dirigido por elas próprias com recurso aos instrumentos reciclados.

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08.08.2015 – A F. (Itália), eu e o F. (França), no bar da piscina de Brestanica, para o concerto tributo aos ABBA. {Vês S.?! Tudo isto é teu legado!}

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09.08.2015 – A J. e a L. (França) vieram fazer uma visita à bela Kostanjevica e ao fresco rio Krka, com direito a passeio pelos jardins e esculturas no interior da Galerija Božidar Jakac.

(Re)Descobrindo a brincar

Uma diferença colossal que tenho vindo a sentir ao longo deste meu quarto de século de vida é a transformação que o conceito de brincar tem vindo a vivenciar. Se antes as brincadeiras eram feitas ao ar livre – com muita roupa e calçado estragados, arranhões e cicatrizes na pele, experiências e histórias para contar – cada vez mais nos dias de hoje elas acontecem sob a protecção de quatro paredes, quanto menos metros quadrados melhor. Houve muitas mudanças na sociedade. Os pais não têm tanto tempo para disponibilizar aos seus filhos, dada a necessidade de passar demasiadas horas a trabalhar entre dois ou três empregos para poder pagar as contas ao fim do mês. Além disso, na busca de melhores oportunidades, muitas foram as famílias que se mudaram para as cidades e deixaram de poder contar com o apoio das suas famílias de origem. A interacção entre avós e netos, a relação entre vizinhos perde cada vez mais valor e importância nas prioridades da vida social. Não há tempo, dizem.

E como é que tudo isto influencia o desenvolvimento da criança? Bom, este não é o lugar para pensar cientificamente o assunto, mas temos de concordar que a mudança tem sido abismal. As brincadeiras na rua, obviamente que tendo em conta condições necessárias de segurança, são uma óptima forma de desenvolver com as crianças competências tão úteis como resiliência, resolução de problemas, criatividade, partilha, trabalho de equipa e capacidade de entreajuda, de uma forma informal e divertida. Foi também com esse intuito que a Terra Vera – Associação para o Desenvolvimento Sustentável, organizou uma semana repleta de actividades ao ar livre para crianças de todas as idades.

Nos dias solarengos de 03 a 07 de Agosto, crianças eslovenas e dos arredores reuniram-se em Kostanjevica na Krki, para explorar as florestas encantadas ao redor da Gruta da aldeia, construir barcos a partir de canas, arranjar madeira da floresta para atear uma fogueira e assar deliciosas massarocas, experimentar os encantos das artes circenses, reciclar os mais improváveis materiais para construir instrumentos e (re)produzir os sons da natureza, dar asas à criatividade com pinturas corporais feitas de barro branco, caminhar por entre os maravilhosos trilhos que levam à beira-rio, e assistir a concertos maravilhosos de canções ancestrais eslovenas. Ver estas crianças a (re)descobrir o brincar, como uma forma de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento pessoal, foi algo tremendamente inspirador e acredito que seja nestas alturas que todos queremos fazer renascer no nosso interior a curiosidade genuína e pura que uma criança tão bem sabe utilizar.

Deixo um especial agradecimento à Miryam e ao trio Mateja, Ana e Samo, que transbordaram motivação e ideias ao serem mentores desta semana de actividades, e à ajuda preciosa da Laura. A todas as crianças e suas famílias, muito obrigada pela vossa participação!

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Diário fotográfico – semana 16

Habitualmente, este post começaria com o repetitivo «Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia», o que, como já perceberam, não vai acontecer desta vez.

Nunca fui muito de fotografias, nem de as tirar, nem de aparecer nelas. Para dizer a verdade, aborrecia-me bastante estar na presença de pessoas que param tudo em prol do registo do momento. Não tem nada de mal, mas, por vezes, acontece envolverem-se tanto na visão através do ecrã que se esquecem de, tão simplesmente, apreciar o que está a acontecer – de certa forma, nunca chegam a “viver” o momento e a permitir que ele fique gravado nas suas entranhas e diversificadas fontes sensoriais, porque estão presentes sem o estar, contentando-se apenas com as memórias registadas pela objectiva da máquina. Por isso mesmo, confesso que me sinto impressionada por isto não ter acontecido mais cedo, pois o facto de ter decidido elaborar um diário fotográfico neste blogue está mais relacionado com a partilha da minha perspectiva sobre a realidade que aqui vivo, do que propriamente com o registo das minhas memórias. No entanto, devo admitir que tem sido um desafio bastante entusiasmante: Comecei a olhar para a fotografia de outra forma, os diferentes planos, os jogos de cor e de luz, a história que aquela fotografia transmite levaram-me a interessar-me pelo tema, pesquisar e praticar, praticar, praticar.

Para a semana de 27 de Julho a 02 de Agosto não tenho uma fotografia por dia para vos mostrar. Podia arranjar uma foto qualquer de um outro dia e escrever o que quisesse – vocês nunca saberiam se se trata da realidade ou não, e eu continuaria a preencher o meu “álbum”. Acontece que isso não seria honesto da minha parte, nem eu tenho interesse em aldrabar a minha experiência. Em certas alturas, a decisão mais sensata passa por desligar determinadas conexões e simplesmente deixar-nos envolver pelo presente que a vida nos dá – ela sabe o que está a fazer. Ainda assim, partilho o resumo da minha semana:

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27.07.2015 e 28.07.2015 – Os dias estiveram tristes em Kostanjevica na Krki, em parte, creio, porque dois dos nossos companheiros voluntários de SVE em Krško partiram de regresso aos seus países, por motivos infelizes que os levaram a concluir antes de tempo os seus projectos. O D. (Bielorrússia) foi o primeiro, e o M. (Turquia) logo se lhe seguiu. Fazem-nos falta pelo seu espírito crítico, criativo e determinado, com quem tive a felicidade de partilhar os primeiros três meses na Eslovénia. Seja como for, já fazem parte da nossa família internacional.

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29.07.2015 – Finalmente (!) visitei a J. (Portugal) e as suas duas alegres filhas! O dia foi maioritariamente passado na capital eslovena, que tem um sítio especial para quem quer andar à chuva quando não está a chover.

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30.07.2015, 31.07.2015, 01.08.2015 e 02.08.2015 – Como já disse e acredito, a vida sabe o que faz, e, por qualquer razão que não preciso saber, trouxe-me às águas paradisíacas da ilha Krk, na Croácia, para viver um processo de transformação irremediavelmente maravilhoso.