Conspiração

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Em tradução livre, pode ler-se “Eu sou uma espécie de paranóico ao contrário. Suspeito que as pessoas conspiram para me fazer feliz.“. E é apenas isso que sinto neste momento.

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Um quarto de século

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Foto por Terra Vera.


Há um ano, quando me deparei com o facto de estar quase a comemorar uma data redonda da minha existência, os 25 anos, imaginava fazer uma viagem, provavelmente dentro da Europa, como forma de celebrar a aventura que tem sido viver este quarto de século. Não me enganei muito. Não fiz a viagem propositadamente para o meu aniversário, mas a verdade é que o festejei fora de Portugal, mas num outro país da Europa.

Tendo em conta a esperança média de vida das mulheres europeias, é bem possível que ainda comemore mais 25 anos, e ainda mais outros 25, mas como não vale a pena colocar a carroça à frente dos bois, faço uso deste espaço para reflectir sobre algumas considerações acerca das minhas vivências. Sinceramente, como poderia eu não fazer um balanço positivo desta “primeira parte” da minha vida? Não tenho recordação de uma parte significativa dela por ter nascido e a minha memória de bebé resumir-se a fotografias e histórias que outras pessoas contam. É isso mesmo. Esta fase foi claramente marcada por isto: Saber da minha história através de outras pessoas, terceiros que contam o que se lembram de ter acontecido e que, com essas memórias, constroem a ideia de quem é a Inês.

Claro que guardo recordações do período da infância e da adolescência mas, mesmo aí, durante essas duas primeiras décadas de vida, a minha percepção do mundo era claramente condicionada pelos estímulos que me eram oferecidos (lá eu sabia o que era um estímulo para procurar um conscientemente?!). Os valores que me foram transmitidos, as tradições que me foram incutidas, os gostos e interesses que me foram sugeridos são o resultado da influência que inúmeras pessoas tiveram (e algumas delas ainda têm) ao longo do meu crescimento. E a verdade é que tenho a agradecer-lhes por todos estes ventos que tantas vezes me despentearam o cabelo e me (des)focaram o olhar. Todos esses momentos, todas essas contribuições fazem de mim o que sou hoje – seja lá o que for.

Mas construída a base (e acho que 25 anos já proporcionam uma boa base), parece-me que chegou a altura de passar a tomar as rédias (se é que já não o comecei a fazer, mas é sempre bom formalizá-lo) e elaborar a minha própria história, escolher os estímulos e as influências que quero deixar entrar e os caminhos que quero percorrer. Se tiver a oportunidade de somar mais um quarto de século à minha vida, talvez possa a partir daí narrar a minha versão da história. Até lá, se lá chegar, e mesmo depois dessa colina, as personagens, os cenários e os enredos desta estória encontram-se constantemente a mudar. Sou um ser em construção – leve-me esse processo onde levar.

De repente as saudades apertaram… Ou o terceiro mês na Eslovénia

E já vamos quase a meio do nosso projecto de serviço voluntário europeu – faz hoje três meses que cheguei à Eslovénia. Acho que o dia 14 de Abril vai ficar-me na memória durante muito tempo.

Durante estes três meses muita coisa tem acontecido a uma velocidade quase estonteante que, muitas vezes, me deixa sem folgo. Às vezes sinto mesmo que não consigo acompanhar o ritmo. Estar atenta, desperta e disponível para todas as aprendizagens que aqui se vivem tem sido bastante desafiante. Quando cheguei a Krško e disse que ia fazer serviço voluntário europeu na pequena vila de Kostanjevica na Krki, com apenas 703 habitantes (agora 705), garantiram-me que ia passar por muito tempo de aborrecimento e depressa me ia fartar da pasmaceira. Pois nada disso tem acontecido. Há sempre algo que fazer, algo a acontecer (já dizia José Mário Branco em “inquietação“, uma das minhas canções preferidas), que mal nos resta tempo para recuperar o folgo e absorver as aprendizagens.

Ainda assim, tem sido uma experiência positiva, não me queixo em relação a isso. Estou a trabalhar com a melhor Coordenadora possível, sempre atenciosa e cuidadora, ao mesmo tempo tão criativa e resiliente – dou por mim espantada com a energia que ela tem para lidar com tantas responsabilidades (dois filhos pequeninos, presidente de uma associação, marido, uma cadela enorme sempre pronta a deitar ao chão quem se lhe atravessar à frente, casa, tempo para ela própria, …!), e admiro-me como é que não vive em burnout permanente. É, sem dúvida, uma pessoa que inspira e se deixa inspirar pelo que a vida tem para oferecer.

Da mesma forma posso falar dos voluntários e voluntárias que tenho conhecido. A partilha de curiosidades sobre a cultura, as diferenças e semelhanças na língua falada e escrita (os sons, as letras do alfabeto, o significado das palavras), os hábitos e tradições, as comidas, as paisagens, a personalidade e a história de vida de cada pessoa fascina-me completamente. São como livros que folheio repleta de entusiasmo e verdadeiramente presa pelo suspense e esplendor da novidade ao virar de cada página. Não posso dizer que estou a fazer “amigos para a vida”, mas garantidamente que gostava de manter presentes algumas destas pessoas depois da aventura de SVE. Tenho aprendido e partilhado tanto, encontrado tantas semelhanças apesar das diferentes origens, tomado as divergências como pontos de reflexão, que me faz sonhar com o reencontro e desejar que as nossas conversas não tenham fim.

Mas tudo o que é bom, acaba, e isto não é excepção. Ao fim de três meses a tentar adaptar-me a uma cultura, língua e costumes diferentes, a procurar criar laços com pessoas, começo a preparar-me para vê-las partir, porque os seus projectos estão a chegar ao fim. Certamente virá outra remessa, mas não é a mesma coisa. Estamos a falar de pessoas, que criam laços e constroem relações. Se olharmos apenas como uma máquina centrifugadora que de vez em quando dá voltas, então, tudo bem – umas vezes voltas para um lado, outras vezes voltas para o outro, e somos todos farinha do mesmo saco. Lá está. Estou “mal habituada” a boas e maravilhosas amizades, que me custa ver as coisas de outra forma.

E a antecipação destas despedidas (só de escrever a palavra fico em pele de galinha. Há muitas coisas que eu não sei e que me custa aprender, entre elas, lidar com o “adeus” (mais difícil do que aprender esloveno)) quase me deixa doente. Fico nostálgica, a sentir a falta das pessoas que ainda não foram embora, com saudades das pessoas que deixei em Portugal, dos meus amigos, da minha família. Ainda por cima, Julho é o mês dos aniversários, dos mergulhos na praia, das petiscadas e dos piqueniques, e das energias renovadas pelo calor do sol para mais uma temporada. E eu aqui, a ver as pessoas ir embora e a deixarem-me “sozinha“. Sei que não é assim, ainda que a falta da presença humana me crie essa ilusão. Há o e-mail, há o facebook, há as vídeo-chamadas, há os postais e o correio tradicional para continuar a trocar sorrisos e a partilhar curiosidades.

Durante esta semana, está a decorrer em Kostanjevica na Krki um Youth Exchange sobre “como ser um guia local”, organizado pela Terra Vera, que conta com a presença de voluntários provenientes de Itália, Turquia e Portugal, o que tem sido um miminho docinho para aconchegar o coração e aliviar, por uns momentos, as saudades de tudo e de todos. E é por isso que me esforço por manter a energia em modo play todos os dias e aproveitar tudinho o que esta experiência me pode proporcionar – porque sei que está determinada no tempo.