O português de uma emigrante

Desde que estou na Eslovénia que me apanho em momentos caricatos no que se refere à produção oral. Bom, o que eu quero dizer é que, como falo todos os dias, todo o dia, em inglês (entenda-se, no meu básico e simples inglês), acabo por já ter um conjunto de esquemas mentais em inglês para explicar o que se passa no meu dia-a-dia. Por outras palavras, cada vez mais penso em inglês, ainda que uma coisa ou outra seja fruto de tradução do português.

É verdade que o meu inglês falado e escrito tem-se tornado mais fluente, totalmente suficiente para utilizar no dia-a-dia, sem as frustrações e as dores de cabeça (reais) que senti no início. Ainda que esteja (muito) longe do vocabulário e do domínio de uma língua materna, a prática revela-se, sem dúvida, uma mais valia. E, vá, a linguagem corporal ajuda muito!

Mas que consequências é que isto tem para a capacidade de me expressar na língua materna, a língua portuguesa? À primeira vista, talvez se pense que não há efeitos secundários – então alguma vez se esquece a língua materna?!

Esquecer, totalmente, não digo. Todavia, se não se pratica, alguma coisa ficará para trás. Confesso que um dos motivos pelos quais tenho a convicção de escrever este blogue em português é, precisamente, o de manter uma ligação forte e fluente à minha língua de origem. Mas, se querem que vos diga, o problema não é escrever. Escrevo e-mails todos os dias, ou respondo a mensagens nas redes sociais, em português.

Problema maior é falar.

Sim, falar! Só falo português com alguém quando o rei faz anos. Não penso que seja impossível, só que nem sempre é viável manter uma comunicação oral por (vídeo)chamada diariamente – na melhor das hipóteses, entre família e amigos, tento comunicar por este meio, pelo menos, uma vez por semana.

Mesmo assim, dou por mim a criar palavras que não existem, como “comível“, em vez de comestível, ou “satisfactórico“, em vez de satisfatório.

Nem quero imaginar como vai ser quando a língua eslovena se tornar fluente no meu quotidiano.

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Neva na Eslovénia

A primeira vez que estive em contacto com neve era muito pequena, talvez com uns 4 ou 5 anos. Não tenho muitas recordações desse dia, mas lembro-me perfeitamente do sentimento de desilusão e desconsolo quando toquei na neve: Uma farsa! Nos desenhos animados e nos filmes a neve parece-se com uma suave almofada de algodão que enche os horizontes, acumula em cima das árvores e dos telhados e serve para as crianças brincarem aos bonecos de neve. Mentira! A neve revelou-se, na realidade, como uma poça de água congelada, fria e molhada.

Muitos anos passaram desde esse primeiro momento em que, desde então, mantinha apenas esta memória de desdém e desagrado pela neve. Até ter regressado à Eslovénia. Pois, aqui é muito mais provável passar por temperaturas abaixo de zero e fingir que a neve não existe não é propriamente uma alternativa, dado que ela está em todo o lado.

Após o Ano Novo, 2016 presenteou-nos com o lençol branco e chuva de flocos de neve que apenas terminou ontem, com uma subida abrupta das temperaturas e um vento descomunal e de força destruidora. É uma experiência diferente que nos ensina a ver o Inverno com outros olhos, dado que em Portugal vivia em zonas onde não neva e as temperaturas são sempre positivas. Um Inverno com neve tem um outro sabor, que começo agora a explorar e a descobrir.

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Diário fotográfico – semana 30

Fotografias da semana de 02 a 08 de Novembro. As férias terminaram e o Projecto de Serviço Voluntário Europeu aproxima-se do final. Começam os preparativos para a contagem decrescente!045

Os dias frios aproximam-se, ainda que os últimos raios de sol teimem em manter a lembrança viva do Verão. Um postal da S. e umas meias para manter os pés quentinhos com as cores outonais que nos aquecem o coração.

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07.11.2015 – Algures em Črnomelj.

Diário fotográfico – semana 24

Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia: 21 a 27 de Setembro.

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21.09.2015 – É bom ver o nosso trabalho publicado (e público!).

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22.09.2015 – *Strong independent black woman* – Valha-nos o bom humor! É para isto que servem os amigos!

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23.09.2015 – Quando ainda eram dois.

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24.09.2015 – Anoitecer, em Kostanjevica na Krki.

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25.09.2015 – Mulheres (em Galerija Božidar Jakac).

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26.09.2015 – O céu é o limite (?).

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27.09.2015 – Šiva, a cadela mais temida nas redondezas.

Diário fotográfico – semana 23

Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia: 14 a 20 de Setembro.

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14.09.2015 – Midterm evaluation do nosso projecto SVE em Ankaran.

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15.09.2015 – Fomos shadows in the night.

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16.09.2015 – Noite de bowling (não é por acaso que o meu irmão diz que nunca mais joga na mesma equipa que eu).

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17.09.2015 – Adeus, Ankaran! Olá, Kostanjevica!

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18.09.2015 – Mais azulejos da tia(-avó).

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19.09.2015 – Foi dia de panquecas e marmelada em Kostanjevica na Krki, com direito a concerto dos jovens alunos da Escola de Música de Krško, na Igreja de St. Jakob (que veio para nos iluminar a todos/as).

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20.09.2015 – Acho que ele estava a pressentir o perigo.

Diário fotográfico – semana 22

Uma fotografia por dia, não sabe o bem que lhe fazia: 7 a 13 de Setembro.

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07.09.2015 – Aproveitando o bom tempo por Kostanjevica na Krki.

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08.09.2015 – Idem.

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09.09.2015 – Representação da Terra Vera no Mladinski Svet Slovenije (National Youth Council of Slovenia), em Brežice.

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10.09.2015 – Artes gráficas na hora de lavar os dentes.

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11.09.2015 – Espreitar à janela é feio.

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12.09.2015 – Podiam ser os azulejos da avó, mas na verdade são da tia(-avó).

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13.09.2015 – Aproveitar os últimos raios de sol antes de este se esconder.

Forma Viva

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Em Kostanjevica na Krki há uma galeria de arte, com o nome “Božidar Jakac”, artista reconhecido não só pelas suas pinturas, mas também por ser responsável pelos retratos oficiais de Tito, durante os (antigos?) tempos do socialismo na Juguslávia. Esta galeria foi construída a partir dos destroços de um mosteiro da Ordem de Cister após a Segunda Guerra Mundial, como forma de aproveitar o seu potencial natural e histórico local, promover o património cultural e dinamizar a comunidade, atraindo curiosos de toda a Eslovénia e arredores.

Desde 1961 que foi formalizado o Simpósio Internacional de Escultores, “Forma Viva“, onde escultores de todo o mundo, dedicados à arte de esculpir madeira, se reúnem num festival em que oferecem a sua contribuição a esta bela localidade, através de estátuas que podem ser apreciadas nos jardins da Galerija Božidar Jakac, em Kostanjevica na Krki.

Há rituais que vale a pena manter, já que eles valorizam a identidade cultural do seu povo, bem como promovem o seu desenvolvimento social e económico. Este vídeo, de Luksuz Produkcija, contribui não só para divulgar a beleza da arte e como ela pode interagir directamente com a comunidade, mas também para aumentar a sensibilização para com a importância da preservação do património, nas suas dimensões físicas e culturais.

Fazer Serviço Voluntário Europeu ou não?… Ou o quinto mês na Eslovénia

Não. Não me esqueci de escrever no blogue. Não perdi a password. Não deixei de escrever no blogue. Acontece apenas que a minha escrita estava focada num outro objectivo: O de escrever uma candidatura ao Programa Erasmus+ para um projecto de Youth Exchange (Uuuuuh, isto parece uma coisa importante. E na realidade é, mas para ser falado num momento mais apropriado). Já não passava tantas horas sentada a escrever ao computador desde que terminei a dissertação de mestrado em 2013! Na verdade foi quase como escrever uma nova dissertação. No final, foram 39 páginas de formulário e escritas em inglês! Desculpem-me a falta de modestia, mas estou bastante (surpreendida! e) satisfeita comigo e com o meu trabalho 🙂

E sim, esta reflexão sobre o quinto mês na Eslovénia já vem um bocadinho tarde, mas mais vale tarde do que nunca. Que posso acrescentar de novo?

Quando estava a fazer estágio (tanto o curricular, como o de acesso à Ordem dos Psicólogos) o nosso Orientador, P.M., insistia muito numa coisa: «Importa-me mais o processo, do que o resultado». Ainda que consiga perceber o que ele nos queria dizer, nem sempre é fácil colocar na prática esta directiva. Os resultados costumam ser a parte mais visível, aquela que podemos mostrar aos outros e dizer se fomos ou não bem sucedidos/as. Todavia, a verdade é que esta frase ficou guardada na gaveta das “Aprendizagens para a vida”, e quando sinto o peso das preocupações com o dito resultado, páro, respiro, e volto a colocar a minha atenção no processo.


processo
pro.ces.so

[pruˈsɛsu]

nome masculino

1. modo de fazer uma coisa; norma; método; sistema
2. ato de proceder ou andar
3. processamento
4. seguimento; decurso

processo in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015. [consult. 2015-10-06 16:41:08]. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/processo


Desde que me instalei na Eslovénia que tenho recebido muitas mensagens de amigos/as e outros/as curiosos/as acerca da aventura de fazer Serviço Voluntário Europeu. Será que vale a pena? Dar prioridade à escolha do país ou do projecto? E o dinheiro de bolso, chega? Como é falar inglês ou ter de aprender uma língua diferente? Há choque cultural? E as saudades de casa e da comidinha da mãe?

Já sabem a minha resposta a todas estas perguntas: Vale a pena, sim. Porém, não fiquem à espera de milagres. Mesmo que aterrem num dos países de paisagens dos contos de fadas, não se esqueçam que no enredo não estão só príncipes em cavalos brancos a cavalgar até ao castelo e a subir à torre mais alta. Os ursos e as bruxas também fazem parte da história. Quero com isto dizer que a experiência é composta por aspectos maravilhosos – o acesso protegido a um conjunto de aprendizagens formais, informais e não-formais, os desafios a que nos sujeitamos e que somos capazes de superar, as viagens que fazemos e o contacto com a natureza e uma cultura diferentes das que estamos acostumados, os/as amigos/as que fazemos e a promessa de manter contacto para o resto da vida… Tudo isto e muito mais pode ser considerado o nosso heróico príncipe cavalgante -, que são complementados com outros aspectos menos brilhantes, mas também eles essenciais – quando as coisas correm menos bem, quando as saudades da comida apertam, quando não há nada para fazer ou há trabalho demais, quando os resultados não foram os que ambicionávamos, quando os/as amigos/as que fizemos aqui se vão embora e nos sentimos sem rede outra vez… Qualquer um destes exemplos pode ser um urso que nos quer atacar ou uma bruxa que teima em lançar o seu feitiço.

Está um texto muito infantil? É para que percebam numa linguagem simples que a vida é mesmo assim: Nem tudo é bom, nem tudo é mau, mas a combinação dos dois elementos traz algo de fantástico que nos ajuda a evoluir e a abandonar os contos de fadas: O processo! Se vale a pena? Como diria Fernando Pessoa, «tudo vale a pena/ Quando a alma não é pequena». Se sentem a vontade sincera de embarcarem nesta aventura, pois recomendo que o façam – devidamente equipados para o que der e vier. Se apenas sentem uma vontade assim-assim, bom, deixem-se surpreender – pode ser que encontrem coisas boas, ou, se não, podem sempre cancelar o programa e regressar à base. Ninguém vos vai julgar por isso. O que diria ser o mais importante, na minha opinião, é isso mesmo: o processo, as vivências que só vocês tiveram e ninguém vos pode tirar, as aprendizagens que fizeram, as pessoas que conheceram e vos marcaram. Mesmo quando não corre como esperávamos, às vezes melhor, outras vezes pior. É a nossa experiência. E tem muito valor.