O português de uma emigrante

Desde que estou na Eslovénia que me apanho em momentos caricatos no que se refere à produção oral. Bom, o que eu quero dizer é que, como falo todos os dias, todo o dia, em inglês (entenda-se, no meu básico e simples inglês), acabo por já ter um conjunto de esquemas mentais em inglês para explicar o que se passa no meu dia-a-dia. Por outras palavras, cada vez mais penso em inglês, ainda que uma coisa ou outra seja fruto de tradução do português.

É verdade que o meu inglês falado e escrito tem-se tornado mais fluente, totalmente suficiente para utilizar no dia-a-dia, sem as frustrações e as dores de cabeça (reais) que senti no início. Ainda que esteja (muito) longe do vocabulário e do domínio de uma língua materna, a prática revela-se, sem dúvida, uma mais valia. E, vá, a linguagem corporal ajuda muito!

Mas que consequências é que isto tem para a capacidade de me expressar na língua materna, a língua portuguesa? À primeira vista, talvez se pense que não há efeitos secundários – então alguma vez se esquece a língua materna?!

Esquecer, totalmente, não digo. Todavia, se não se pratica, alguma coisa ficará para trás. Confesso que um dos motivos pelos quais tenho a convicção de escrever este blogue em português é, precisamente, o de manter uma ligação forte e fluente à minha língua de origem. Mas, se querem que vos diga, o problema não é escrever. Escrevo e-mails todos os dias, ou respondo a mensagens nas redes sociais, em português.

Problema maior é falar.

Sim, falar! Só falo português com alguém quando o rei faz anos. Não penso que seja impossível, só que nem sempre é viável manter uma comunicação oral por (vídeo)chamada diariamente – na melhor das hipóteses, entre família e amigos, tento comunicar por este meio, pelo menos, uma vez por semana.

Mesmo assim, dou por mim a criar palavras que não existem, como “comível“, em vez de comestível, ou “satisfactórico“, em vez de satisfatório.

Nem quero imaginar como vai ser quando a língua eslovena se tornar fluente no meu quotidiano.

Uma palavra que nem sabia que existia

Um dia destes, enquanto saltitava de um pouso para outro na blogosfera, deparei-me com uma palavra que, ainda hoje, tenho dificuldade em pronunciar. Não a conhecia, nem nunca imaginei que existia uma palavra para descrever tal acção; talvez por isso mesmo, cativou-me à primeira vista. Achei-lhe o significado tão bonito e poético que quis registá-lo No Blogue de Notas.

serendipidade

Significado consultado aqui.

Um passeio à beira-rio

O dia amanheceu frio e cinzento. Sem esforço, conseguíamos apreciar o vapor que saia com a nossa expiração enquanto conversávamos.

Sobrou-nos tempo depois dos afazeres completados e, por isso, decidimos ir dar um passeio à beira-rio até encontrarmos um sítio agradável para sentar e beber um café ou um chá quente. Procurávamos um pedaço de terra abençoado pelos escassos raios de sol daquela manhã, como o lagarto que aquece o sangue para continuar a sua jornada.

Todavia, a cidade teimava em sentir-se melancólica, tornando o nosso passeio numa longa caminhada a passo com o rio. Caminhávamos de mãos dadas, eu no meu passo acelerado de quem vai chegar tarde, ele num passo lento como quem pára para sentir todos os odores. De soslaio, espreitei-o pelo canto do olho.

Que visão encantadora! Do meu lado esquerdo estava um ser mais resplandecente do que uma qualquer estrela, a força da natureza que trouxe o sol de volta à cidade recuperando-lhe as cores e o calor. Vi um homem de peito aberto para o céu, cabeça erguida com um sorriso seguro da sua sorte e olhos brilhantes fixos na certeza de saber qual é o seu caminho. Em frente, certamente.

Naqueles breves segundos, estou certa de que nada mais existiu senão as nossas mãos dadas a passear à beira-rio. Como se me lesse os pensamentos, afirmou “Nunca tive um passeio tão agradável nesta cidade como este”.

Desacelerei, apertei a sua mão e sorri acompanhando-o, não apenas no passeio, mas também na emoção.