Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura… Ou o sexto mês na Eslovénia.

E, para não variar, mais uma publicação que vem atrasada. Quem espera, desespera, e parece ser notória a minha falta de investimento em manter este blogue actualizado. Ainda que goste bastante de escrever, e que o faça regularmente, escrever para alguém que não seja eu mesma ou para um propósito profissional, e ainda por cima para uma plateia “invisível” tem sido um desafio bem interessante! Não sei se manterei o blogue de pé depois do projecto de Serviço Voluntário Europeu terminar, afinal de contas, as aventuras partilhadas No blogue de notas surgiram com o propósito de registar a minha experiência enquanto voluntária. Ainda que esteja inclinada para o seu términus, o mais importante é que tem sido uma bonita forma de guardar memórias.

E sim, o projecto de voluntariado está quase a chegar ao fim. Como não podia deixar de ser, começam a surgir algumas reflexões. Não me vou estender muito. Vejo-o como uma boa decisão. Quando me candidatei ao projecto “Food for SOULidarity” da Terra Vera, nunca pensei, tampouco, que pudesse vir a ser chamada para entrevista, quanto mais seleccionada. Concorri apenas no espírito do “não perco nada por tentar”, e o resultado foi uma boa surpresa, sim.

Como já falei aqui anteriormente, a Agora Aveiro, associação parceira do projecto que me “enviou” para a Eslovénia, preparou um pre-departure training em que escrevi três cartas para a “Inês do futuro”; a primeira recebi ao fim de um mês de projecto, a segunda ao fim de três meses, e a última ao fim de seis. Em qualquer momento, não me lembrava do conteúdo de nenhuma delas pelo que, de qualquer das maneiras, foi uma surpresa reler as cartas quando as recebi. Foi, diga-se, “engraçado” receber as duas primeiras cartas, mas confesso que não contava ser tão apanhada desprevenida pela terceira delas – emocionei-me. Não digo nada de extraordinário, e talvez seja fácil de ser erroneamente interpretada por ser lida fora do contexto, mas porque foi uma boa fonte de auto-feedback-positivo que recebi de mim própria, partilho-a convosco.

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A distância, o tempo, a mudança de língua, de comida e de cultura, no fundo, de hábitos, tem sido um desafio que me proporciona aprendizagens de um valor incalculável. Uma delas foi, acho que posso dizer, a aceitação. Há coisas que são como são. E uma dessas coisas a que me refiro é a minha família. Tenho de reconhecer que aprendi e aprendo muito com todos os seus elementos. Obrigada. Sem ironismos, nem piadolas. A sério, obrigada. Pelo esforço e dedicação. Pela paciência e dores de cabeça. Pelos bons e pelos maus exemplos (as coisas más também nos ensinam muito). Há alguém que seja o filho/a filha perfeito/a? Como se costuma dizer, quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Que dizer? Eu sou eu, não sou outra pessoa, paciência! Sou fruto de várias influências, sim, e orgulho-me bastante delas, das “boas” e das “más”, porque todas me ensinaram imenso, ainda que, por vezes, não fosse fácil ver no momento o que me estavam a transmitir. Preciso de mais tempo do que a maioria das pessoas para processar a informação, mas chego lá. Se não hoje, amanhã. Se não amanhã, depois. Mas chego lá. É a vida.

Mas a verdade é que, se não fosse por a minha família ser o que é, talvez nunca me tivesse candidatado ao projecto de Serviço Voluntariado Europeu, e talvez não vos estivesse a escrever do país das paisagens dos contos de fadas. Se não fosse por a minha família ser o que é, certamente não teria alcançado as metas que alcancei até hoje. Por detrás deste aspecto de boneca de porcelana que se vai partir ao mais leve toque, não estaria uma lutadora que aprendeu a não baixar os braços. Provavelmente não teria feito metade do que fiz se tivesse tido a família que eu tanto teimei que “devia” ter – o que foi bom, porque canalizei a minha angústia (sim, senti angústia muitas vezes, não foram só os meus pais) para algo produtivo, e estou satisfeita pelo meu percurso. Isto foi só o “aquecimento”, uma preparação para os desafios e as decisões que tenho pela frente.

É caso para dizer que custou admitir isto, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Aos que são a minha família, sinto-me feliz pelas raízes que me alimentaram e pelo tronco que me sustentou, para que pudesse ser fruto. Devo-lhes muito e sinto-me verdadeiramente agradecida, ainda que nem sempre seja fácil demonstrar.

Mais uma vez, obrigada.

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