De repente as saudades apertaram… Ou o terceiro mês na Eslovénia

E já vamos quase a meio do nosso projecto de serviço voluntário europeu – faz hoje três meses que cheguei à Eslovénia. Acho que o dia 14 de Abril vai ficar-me na memória durante muito tempo.

Durante estes três meses muita coisa tem acontecido a uma velocidade quase estonteante que, muitas vezes, me deixa sem folgo. Às vezes sinto mesmo que não consigo acompanhar o ritmo. Estar atenta, desperta e disponível para todas as aprendizagens que aqui se vivem tem sido bastante desafiante. Quando cheguei a Krško e disse que ia fazer serviço voluntário europeu na pequena vila de Kostanjevica na Krki, com apenas 703 habitantes (agora 705), garantiram-me que ia passar por muito tempo de aborrecimento e depressa me ia fartar da pasmaceira. Pois nada disso tem acontecido. Há sempre algo que fazer, algo a acontecer (já dizia José Mário Branco em “inquietação“, uma das minhas canções preferidas), que mal nos resta tempo para recuperar o folgo e absorver as aprendizagens.

Ainda assim, tem sido uma experiência positiva, não me queixo em relação a isso. Estou a trabalhar com a melhor Coordenadora possível, sempre atenciosa e cuidadora, ao mesmo tempo tão criativa e resiliente – dou por mim espantada com a energia que ela tem para lidar com tantas responsabilidades (dois filhos pequeninos, presidente de uma associação, marido, uma cadela enorme sempre pronta a deitar ao chão quem se lhe atravessar à frente, casa, tempo para ela própria, …!), e admiro-me como é que não vive em burnout permanente. É, sem dúvida, uma pessoa que inspira e se deixa inspirar pelo que a vida tem para oferecer.

Da mesma forma posso falar dos voluntários e voluntárias que tenho conhecido. A partilha de curiosidades sobre a cultura, as diferenças e semelhanças na língua falada e escrita (os sons, as letras do alfabeto, o significado das palavras), os hábitos e tradições, as comidas, as paisagens, a personalidade e a história de vida de cada pessoa fascina-me completamente. São como livros que folheio repleta de entusiasmo e verdadeiramente presa pelo suspense e esplendor da novidade ao virar de cada página. Não posso dizer que estou a fazer “amigos para a vida”, mas garantidamente que gostava de manter presentes algumas destas pessoas depois da aventura de SVE. Tenho aprendido e partilhado tanto, encontrado tantas semelhanças apesar das diferentes origens, tomado as divergências como pontos de reflexão, que me faz sonhar com o reencontro e desejar que as nossas conversas não tenham fim.

Mas tudo o que é bom, acaba, e isto não é excepção. Ao fim de três meses a tentar adaptar-me a uma cultura, língua e costumes diferentes, a procurar criar laços com pessoas, começo a preparar-me para vê-las partir, porque os seus projectos estão a chegar ao fim. Certamente virá outra remessa, mas não é a mesma coisa. Estamos a falar de pessoas, que criam laços e constroem relações. Se olharmos apenas como uma máquina centrifugadora que de vez em quando dá voltas, então, tudo bem – umas vezes voltas para um lado, outras vezes voltas para o outro, e somos todos farinha do mesmo saco. Lá está. Estou “mal habituada” a boas e maravilhosas amizades, que me custa ver as coisas de outra forma.

E a antecipação destas despedidas (só de escrever a palavra fico em pele de galinha. Há muitas coisas que eu não sei e que me custa aprender, entre elas, lidar com o “adeus” (mais difícil do que aprender esloveno)) quase me deixa doente. Fico nostálgica, a sentir a falta das pessoas que ainda não foram embora, com saudades das pessoas que deixei em Portugal, dos meus amigos, da minha família. Ainda por cima, Julho é o mês dos aniversários, dos mergulhos na praia, das petiscadas e dos piqueniques, e das energias renovadas pelo calor do sol para mais uma temporada. E eu aqui, a ver as pessoas ir embora e a deixarem-me “sozinha“. Sei que não é assim, ainda que a falta da presença humana me crie essa ilusão. Há o e-mail, há o facebook, há as vídeo-chamadas, há os postais e o correio tradicional para continuar a trocar sorrisos e a partilhar curiosidades.

Durante esta semana, está a decorrer em Kostanjevica na Krki um Youth Exchange sobre “como ser um guia local”, organizado pela Terra Vera, que conta com a presença de voluntários provenientes de Itália, Turquia e Portugal, o que tem sido um miminho docinho para aconchegar o coração e aliviar, por uns momentos, as saudades de tudo e de todos. E é por isso que me esforço por manter a energia em modo play todos os dias e aproveitar tudinho o que esta experiência me pode proporcionar – porque sei que está determinada no tempo.

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2 thoughts on “De repente as saudades apertaram… Ou o terceiro mês na Eslovénia

  1. Inês, de 18 a 25 de setembro vou estar “pertinho” de ti, na Croácia. Estou tentada a dar um pulo à Eslovénia para te dar uns beijinhos, que dizes?
    Parabéns pelo blogue e pela tua coragem 😉

  2. Querida Cláudia, fico muito feliz com essa notícia! A Croácia é um país lindo, espero que tenhas uma óptima estadia lá! Claro que tenho todo o gosto em receber os teus beijinhos na Eslovénia, e acredita que é um país que também merece muito ser visitado; se a minha presença servir de incentivo, então que assim seja! Muito obrigada pelo teu apoio!

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