Clown Festival em Ljubljana

Para ti, o que é um palhaço e qual é o seu papel?

As questões acima parecem ser um tanto ou quanto descabidas, até mesmo ridículas. Foste apanhado/a de surpresa? Eu também. Na verdade, a minha ideia de palhaço era a de uma pessoa, geralmente do sexo masculino, de cara exageradamente pintada, com nariz redondo vermelho, uma peruca encaracolada colorida, umas roupas largas, e uns sapatos que parecem umas barbatanas. Há pessoas que adoram esta figura, outras que a abominam e temem nos seus piores pesadelos.

Todavia, a 8.ª Edição do Clown Festival que decorreu na semana passada, de 15 a 21 de Junho, em Ljubljana, transformou por completo a minha ideia sobre palhaços. Este festival foi organizado pela Escola de Circo Zavod Bufeto, cujos cabecilhas são um casal Russo que, depois de assumir «palhaço» como principal profissão, decidiram instalar-se na Eslovénia, e por aí ficaram faz já 25 anos. O trabalho do Zavod Bufeto, para além da realização de espectáculos, é essencialmente dar formação a quem estiver interessado e motivado em conhecer, explorar e aprofundar as mais variadas técnicas de clown, com cursos e workshops. Todos os anos, o festival de palhaços conta com actuações nas ruas de Ljubljana, com workshops diversos e actividades para todas as idades.

Este ano, durante as manhãs dos dias 17 e 18, o ex-director artístico do Cirque du Soleil, o americano David Shiner, dinamizou uma Master Class de Psychology of the ClownQuê?! É isso, é mesmo isso – psicologia dos palhaços. Foi a partir daqui que a minha forma de ver estas figuras mudou da frente para o verso (ou vice-versa, que agora não interessa muito). No fundo, não é nenhuma matéria específica, nem nada de extraordinário – e aí é que reside a beleza da coisa! A base de trabalho do palhaço é tão simples, como as necessidades básicas que qualquer pessoa tem – ter sede, ter fome, querer abrir o guarda-chuva mas ele decide partir precisamente quando começa a chover torrencialmente, esquecer as chaves dentro de casa e a porta está trancada, querer tirar fotografias mas o rolo ou a bateria chegou ao fim, querer comprar um gelado mas faltarem 20 cêntimos na carteira… Basicamente, em todas as situações, até as mais rotineiras e aborrecidas do dia-a-dia, podem trazer inspiração para o clown, dado que a sua base de trabalho é, tão somente, o sofrimento.

Mas quê?! É suposto o palhaço fazer rir, e para fazer rir tem de dizer/ fazer coisas engraçadas. Pois aí é que está, o clown ridiculariza o sofrimento, gerando empatia com o grupo de espectadores que rapidamente sentem «Isto está sempre a acontecer-me!», «Eu também me sinto assim às vezes!», «Aquele palhaço é tão azarado quanto eu!». Coisas simples, nada de muito complicado. Aquilo que já não é tão simples, é criar uma história – com princípio, meio e fim – que consiga prender a atenção do espectador nesta rede de empatia. Mais difícil ainda se torna se não se puder contar a história com palavras, mas apenas com recurso à linguagem e expressão corporal. Foi este o desafio que os participantes da Master class of Psychology of the Clown tiveram de enfrentar.

020

Actuação do grupo Le LidoCentre des Arts du Cirque de Toulouse.

037

Cirkuški kabaret – actuação do grupo de estudantes do Zavod Bufeto.

050

Comemorar o dia mundial do malabarismo com um workshop (para todos os gostos e feitios). 060

Paolo Nani (Dinamarca).

Simplesmente pessoas. É disso que estamos a falar. Pessoas comuns, que não precisam de roupas espampanantes, nem de maquilhagem exagerada, ou cabelos postiços para criarem uma ligação – ainda que apenas por breves momentos – com outras pessoas. São pessoas que corajosamente se expõem – expõem os seus receios, as suas fraquezas e utilizam-nas como o seu bem mais precioso para alcançarem o seu propósito – rir. Pessoalmente, foi muito gratificante poder participar neste evento que me deu a oportunidade de observar de perto coisas que eu nem sabia que existiam. Só tenho a agradecer por estes dias fantásticos, bastante intensos, mas repletos de aprendizagens.

(Um aparte: Nunca ouvi tanto fado em Portugal, como agora na Eslovénia. Parece que gostam muito deste estilo musical, principalmente pela voz de Amália Rodrigues e de Mariza).

ACTUALIZAÇÃO 26.07.2015: Na Mladinska oddaja de Julho de 2015, elaborada pelos voluntários e voluntárias de Serviço Voluntário Europeu, é possível ver a peça que construíram sobre o Clown Festival, em Ljubljana, do início até ao minuto 6’54”.

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