Curiosidades sobre a cultura eslovena …Ou o segundo mês na Eslovénia

No passado dia 14 de Junho fez, precisamente, dois meses que alcancei terras eslovenas para dar início a esta aventura de Serviço Voluntário Europeu. Foi um aniversário muito bem comemorado, na piscina de Brestanica, no concelho de Krško, e pedir por melhor companhia seria simplesmente impossível.

Mas o tempo realmente parece estar a avançar a passos largos e dos sete meses de projecto já “só” me restam cinco – menos de meio ano! Claro que em cinco meses dá para fazer muita coisa, e muita coisa ainda está por acontecer. Contudo, é esperado que este período sirva para desenvolvermos algumas competências e projectos, pelo que o apelo à capacidade de organização e planeamento começa a ser necessário. Claro que não tenho expectativa de fazer coisas do outro mundo, mas as ideias que entretanto germinaram na minha cabeça não vão deixar de ser somente isso se eu não as concretizar – e sinto verdadeiramente vontade de as colocar em prática e de as ver ganhar forma no mundo real!

Agora que já passaram dois meses começo a ter a percepção de alguns padrões culturais aqui na Eslovénia (reforço que esta é a minha percepçãonão estou a afirmar verdades absolutas):

  • Aqui é muito comum verificar o hábito de tirar os sapatos assim que se entra em casa – descalçam-se os sapatos e calçam-se chinelos ou pantufas. Dizem que é mais higiénico e, assim, evitam grandes quantidades de sujidade no chão. Na verdade, esperam também que os seus convidados façam o mesmo e, na maioria das vezes, têm até pares de chinelos extra, disponíveis em vários tamanhos, para estas ocasiões.
  • Outra curiosidade, é que em qualquer café na Eslovénia, o café é acompanhado por um copo de água – aqui a água da torneira é boa para beber, portanto não se sintam ofendidos se isso acontecer. Dizem que a água serve para aliviar o hálito a café e limpar os dentes depois de o beber.
  • Parece-me, também, que aqui valorizam muito a forma física e a saúde do corpo, pelo que é muito comum ver pessoas de todas as idades e feitios a fazer exercício físico ao ar livre, quer nas grandes cidades, quer nas pequenas aldeias. Caminhar, correr ou andar de bicicleta são as actividades mais comuns, mas, para os que têm condição financeira que lhes permita, há também boas ofertas de desporto individual ou colectivo, ou simplesmente ginásios.
  • Por falar em bicicletas, as ciclovias são uma realidade na Eslovénia! Não compreendo ainda quais são as políticas do país em termos de sustentabilidade ambiental, mas a verdade é que é extremamente comum encontrar ciclovias em óptimas condições. Por exemplo, na capital, um gigante número de pessoas desloca-se em bicicletas – é possível alugar bicicletas gratuitamente durante uma hora, facilmente se encontra um sítio para as estacionar e existem sinais de trânsito específicos para este meio de transporte. Desde estudantes, senhoras de vestido ou a homens de fato e gravata, não é difícil ver de tudo um pouco por aqui. Nas pequenas cidades, vilas ou aldeias, as condições para as ciclovias não são tão pormenorizadas, mas elas existem na mesma!
  • Além do cuidado com o corpo, as pessoas que tenho conhecido na Eslovénia também se preocupam com o bem-estar psicológico e social. Não posso falar tanto pelos jovens, pois não tenho conhecido muitos (por enquanto), mas no que respeita aos adultos e por aí adiante, valoriza-se o espaço individual para reflexão ou introspecção, como também o espaço para alimentar as relações com a rede de suporte (família e amigos). Não é estranho combinarem programas para mais do que um dia, ou bem mais do que uma ou duas horas no mesmo dia, e o valorizam o chamado «tempo de qualidade». Quando estão presentes, estão mesmo presentes, e não apenas para fazer figura e dizer que «sim».
  • No entanto, os cumprimentos ainda me baralham bastante o esquema. Aqui, uma rapariga cumprimentar alguém com dois beijinhos pode ser interpretado de uma forma bastante perversa. Os beijinhos são reservados apenas para pessoas especiais em momentos especiais – não se vê as pessoas darem beijinhos, nem mesmo entre pais e filhos. Tampouco abraços. Mas, quando alguém decide cumprimentar-te com beijinhos e abraços, prepara-te, porque vão ser logo três beijinhos de uma vez e um abraço apertado! Aqui, o cumprimento típico é… nenhum. Diz-se só «Olá». Se se quer mostrar que somos “amigáveis” podemos dar um aperto de mão, como quem diz, «se precisares de alguma coisa, estou aqui». Como devem calcular, na Eslovénia estou a sofrer de défice de beijinhos e abraços – Eu! Que dou beijinhos e abraços a toda a gente. Que estou habituada a dar beijinhos quando me encontro com pessoas e quando me despeço delas. Que estou habituada a dar beijinhos aos meus pais de manhã quando acordamos e à noite quando nos deitamos. Que estou habituada a receber um abraço, ou a dar um abraço, quando as coisas parecem desencaminhar-se. Pois, se calhar fui mal habituada.
  • Algo que me impressionou bastante foi o facto de, entre as pessoas que conheci, empregadas ou desempregadas, é muito, muito raro encontrar alguém que não tenha um hobbie ou uma ocupação. Mas atenção – não se trata simplesmente de algo que renda dinheiro extra ou que se sintam na obrigação de fazer para «parecer socialmente bem» – é algo que fazem com alma e coração, algo a que se dedicam como se da sua própria vida se tratasse. Alguns, realmente são compensados financeiramente com estas actividades, mas essa, normalmente, não é a finalidade principal. Desde o cultivo de espargos, à produção de queijo, à confecção de doces de chocolate, à confecção de pão, à produção de vinho, à produção de mel, à culinária em geral, à produção de produtos cosméticos naturais, à jardinagem, à costura e ao tricot, a explicações, à pintura, ao teatro, à música, ao yoga, à política… Encontra-se de tudo um pouco, mas algo que é realmente valorizado por estas pessoas e pelas que as rodeiam. Até agora, para ser sincera, não encontrei ninguém que, estando empregado, apenas se dedique ao trabalho (e, nos casos que em que se aplica, à família), nem que, estando desempregado, esteja sem fazer alguma coisa. Esta gente (das que tenho conhecido) encontra sempre algo para fazer e com que se ocupar, algo que lhes limpa a alma e que os ajuda a manter a sanidade mental e uma clareza de pensamento e visão do mundo invejável.

E pronto, para já são estas as minhas reflexões e curiosidades sobre a cultura eslovena. Mais uma vez reforço que são apenas o reflexo da minha visão, e não de todo constam de verdades incontestáveis. Parece aqui que tudo é perfeito e que não são só as paisagens que pertencem a contos de fadas… Mas também há coisas menos positivas. Por exemplo, o custo de vida na Eslovénia parece-me ser elevadíssimo para aquilo que eles recebem. O salário mínimo ronda os 600€, mas os impostos, as rendas de casa, as contas de água, luz, gás e internet são elevadíssimos e os preços nos supermercados são descomunais. Ainda não percebi qual é o segredo deles para fazer face às despesas, mas começo a compreender o porquê de se cuidarem tanto psicológica e fisicamente – haja alguém que invista neles próprios.

Anúncios

Escrever uma nota

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s