Dos desafios do SVE: Cantar em público

[Aviso à tripulação: A minha inspiração para escrever, ao contrário de outras coisas, sempre foi grande, pelo que vos devo o aviso de que o post que se segue será longo.]

Se gosto de cantar? Gosto. Se o faço regularmente? Claro. Mas só quando não está ninguém por perto, o que, confesso, é um pouco difícil de acontecer aqui na Eslovénia, já que estamos rodeadas de pessoas a maior parte do tempo. O facto de gostar de cantar não implica que eu o faça bem. Por ter cantado em coros antes, e com bons maestros, estou consciente das minhas limitações vocais – que são consideráveis para uma “cantora”, ainda que pareçam insignificantes para o “comum dos mortais”.

Foi assim que me “cataram”. De tanto me ouvirem cantarolar para aqui e para acolá, um dia pediram-me para cantar – mas garanto que, quando o fizeram, não tinham a mínima ideia do que ia sair dali. Nem eu. Cantei em português e correu bem. Não perceberam nada (Aqui ninguém percebe pevas de português), mas, ao que parece, gostaram. E, desta forma, o sucedido rapidamente espalhou-se pela pequena zona em que vivo. Até a J., a nossa Coordenadora, sem nunca me ter ouvido cantar, andava a prometer a toda a gente que eu cantava «maravilhosamente».

Pois, acontece que um dia – mais propriamente, na passada quinta-feira, 4 de Junho, enquanto passeávamos pela cidade de Novo Mesto, depois de termos participado numa reunião sobre um programa de Youth Exchange que vai decorrer na ilha de Sardenha (Itália) – o mais improvável aconteceu. Entrámos, por mera curiosidade, numa loja que vende artigos em segunda mão e, depois de termos visto e revisto a loja de uma ponta à outra, deparámo-nos com um conjunto de instrumentos meio escondidos. O empregado da loja rapidamente se prontificou a esclarecer que aqueles instrumentos, apesar do aspecto usado, não estavam para venda, e que aquele canto recôndito era, na verdade, a sala de ensaios da banda em que ele tocava. Como não havia mais ninguém na loja, ele arriscou em tocar e cantar umas músicas para nós. Cantou em esloveno, cantou em inglês, tentou cantar em italiano e, quando chegou a vez do português… Ai, que agora é que a porca torce o rabo! Lá pensei em dar-lhe uma ajudinha, e disse-lhe que, em português, podia cantar. Estava mesmo a pedi-las, não é?! Só que a minha lógica era outra – já que ele não conhecia nenhuma música em português, provavelmente também não iria querer inventar, portanto, não me ia pedir para cantar. Certo?

Errado! Eu, que nunca canto na presença de outras pessoas (os que me conhecem sabem do que estou a falar), que nunca estive perante um microfone (nem mesmo no Karaoke, que dava sempre espaço aos outros), de repente vejo-me em frente a um com uma plateia de três singelas pessoas. Cantei, que remédio. Não foi perfeito, nem nada que se pareça. A minha voz tremia que nem varas verdes, e as minhas pernas também. Só queria arranjar um buraco para me enfiar e nunca mais sair de lá. Mas no final, a nossa Coordenadora emocionou-se (inicialmente pensei que fosse com pena da minha triste figura), e o empregado da loja deu-me os parabéns e convidou-me para cantar com ele num concerto que a sua banda ia fazer, no dia seguinte, num bar a 5 Km de Kostanjevica na Krki.

A verdade é que a J. comprometeu-nos, ainda em Abril, com um evento que teria lugar no dia 6 de Junho. Tratava-se de uma maratona literária, na cidade de Krško, em que fomos convidadas a ler poesia dos nossos países, nas nossas línguas maternas. Quando a J. disse que eu cantava, a C. prontamente deu a entender que gostava muito que eu o fizesse neste evento. A sério?! Portanto, este percalço na loja de artigos em segunda mão e o súbito convite para cantar no bar, até vinham a calhar como aquecimento para o “grande evento”. Portanto, na sexta-feira, dia 5 de Junho, fomos novamente as três estrada fora.

O bar até era agradável, ao início. Estava uma noite quente que nos manteve na esplanada o tempo todo. Os clientes do costume eram simpáticos e fizeram-nos sentir bem recebidas. Mas tudo o que é demais é moléstia e, com o avançar da noite, mais uma bebida aqui, mais uma bebida ali, a coisa começou a tornar-se um bocado insuportável. Lá chegou a tão esperada hora de cantar com a banda. Foi apenas uma música. Fui para o palco, sem saber muito bem onde me colocar. Peguei no microfone. Cantei. Fui me embora. E, pronto, foi isto. Foi estranho. Ao que parece, a espontaneidade do que ocorreu no dia anterior tornou tudo muito mais mágico. Ali, estava a sentir uma pressão diferente, uma obrigação – aliás, duas. A de cantar e fazer boa figura em público, e a de o fazer depressa para sairmos dali o mais rapidamente possível e não sermos mais importunadas.

Com isto tudo, como é que correu a maratona literária no passado dia 6? Eu diria que foi um sucesso. Não por mim, claro! Digo isto tendo em conta o evento todo – as Organizações representadas estiveram todas muito bem, escolheram textos e poemas muito diversificados, alguns mais relacionados com o âmbito do seu trabalho, outros com os seus gostos pessoais. Mas, o mais importante, para mim, foi o facto de ver tantas pessoas, de todas as faixas etárias, reunidas num sábado ao final do dia para, tão simplesmente, ler. Comoveu-me. Achei lindo. Para esta maratona literária, a F. avançou primeiro com um excerto do livro “Elias Portolu“, de Grazia Deledda, e eu levei o poema “Magnificat”, de Álvaro de Campos, e “Autopsicografia” de Fernando Pessoa – ao que parece, Fernando Pessoa e os seus heterónimos são muito conhecidos na Eslovénia e, na verdade, foi o único livro de autores portugueses que encontrei traduzido para esloveno (este é um pormenor importante, dado que cada uma de nós leu na sua respectiva língua, e a nossa Coordenadora leu-os, seguidamente, em esloveno, para que o público compreendesse algo). O toque final foi dado com “Ser poeta“, de Florbela Espanca, que interpretei à moda dos Trovante.

A F. e eu fomos as últimas, tivemos a honra de encerrar a maratona literária. Depois de tanta espera, pensei que ia estar mais ansiosa com a exposição ao público. Não aconteceu. De mim para comigo, relembrei o quão frustrada me senti quando, no Workshop de Culinária Portuguesa, as minhas expectativas foram totalmente defraudadas; por isso mesmo, desta vez, fiz um compromisso para mim própria: Não quero voltar a sentir-me daquela maneira. É muito provável que as coisas não corram como eu imaginei inicialmente, mas o mundo não acaba por causa disso. De vez em quando, é bom descer dos sonhos e assentar bem os pés na terra. O que será, será; whatever will be, will be. E assim foi. Foi canja? Claro que não. Correu bem? Podia (sempre) ter corrido melhor. Acima de tudo, foi um momento divertido, um privilégio e uma experiência extremamente enriquecedora, que até então eu nunca tinha vivido. De forma geral, recebemos um bom feedback, o que me deixa feliz e tranquila. Feitas as contas, este desafio valeu (e muito) a pena.

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