Recomendo em Ljubljana: Druga Violina e Tipo Renesansa

Quando chegámos à Eslovénia e dissemos aos outros voluntários que iríamos viver em Kostanjevica na Krki, a maior parte deles torceu um sorriso amarelo e respondeu «Coitadas, ao fim de um mês vão querer fugir de lá. É uma terra pequena, não se passa lá nada». Não podiam estar mais enganados. A verdade é mesmo esta: Desde que chegámos que não temos mãos a medir e aborrecimento é uma palavra que não se conhece por estes lados. Muito deste dinamismo deve-se à nossa Coordenadora, J., que se dedica de corpo e alma aos valores em que acredita e ao trabalho que realiza com a Terra Vera

Uma das melhores coisas de trabalhar com a J. é a oportunidade de conhecer pessoas, instituições e locais únicos e inspiradores, que nos abrem janelas de curiosidade para mundos que antes nem sonhávamos existirem. Dois desses momentos aconteceram no passado dia 28 de Maio, em Ljubljana.

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Na pequena praça de Stari, no centro da capital eslovena, há um pequeno espaço de comércio de restauração que eu recomendo vivamente, não só porque a comida é deliciosa, ou porque o espaço é agradável, mas principalmente pelo motivo que está por detrás da sua existência. Chama-se Druga Violina, e é um restaurante que trabalha em colaboração a CUDV, uma instituição para a educação, acompanhamento, trabalho e cuidados de saúde e reabilitação de crianças, adolescentes e adultos com incapacidades intelectuais moderadas, severas ou profundas. Gostei bastante do conceito e, principalmente, da forma como o colocam em prática – aqui as pessoas são tratadas realmente como tal, com dignidade e respeito, pelo seu trabalho e pelo seu esforço, e não como um estorvo ou uma inutilidade para a sociedade. Ainda que, em algumas situações, seja necessário supervisão e orientação para a realização de determinadas tarefas, a autonomia e a responsabilidade são promovidas como parte do exercício de cidadania plena.

Druga Violina à direita.

Tinha que ter tirado esta foto. Digam lá, estava destinado eu conhecer este espaço, não estava?!

Sei que em Portugal existem algumas ideias semelhantes, que também devem ser valorizadas, como por exemplo, o fantástico trabalho da Delegação de Coimbra da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental (APPACDM), com a Casa de Chá, no encantador espaço do Jardim da Sereia.

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Enquanto decidíamos qual o sabor da bola de gelado que íamos comer de sobremesa, a J. encontrou um casal amigo que, rapidamente, viemos a descobrir que iria influenciar positivamente a nossa breve estadia por Ljubljana. Desta vez, vou apenas destacar o trabalho do Marko Drpić, mas o trabalho da sua esposa também merecerá a devida atenção no blogue de notas.

O Marko é designer, com uma paixão acutilante por caligrafar, não apenas nos mais variados tipos de papel, como também em pedra! Todo o seu trabalho é realizado manualmente, apenas com o auxílio dos instrumentos tradicionais. Além disso, trabalha ainda numa oficina de tipografia, que podem encontrar à beira do rio Ljubljanica (lê-se Lhublhanitsa), onde tem uma enorme colecção de peças e máquinas antigas, que ainda funcionam e das quais ele cuida como se fossem suas filhas. As impressões de cartas antigas, e à moda antiga, recebem o devido carinho nas mãos do Marko, que se lhes dedica com a ternura que só a paternidade traz.



Conhecer pessoas que trabalham em algo que realmente as apaixona, que as motiva para as suas responsabilidades, mas que ao mesmo tempo as desenvolve enquanto pessoas e enquanto cidadãos, que lhes mantém a mente activa e interessada, desperta e curiosa, é algo de uma inspiração indescritível. Desde que estou na Eslovénia, e graças essencialmente à J., tenho tido a sorte extraordinária de conhecer uma série destas pessoas, que facilmente me enfeitiçam e cativam a querer conhecê-las melhor e me preenchem o pensamento com ziliões de perguntas e curiosidades. O trabalho do Marko requer um compromisso sério e devoto, que o faz continuar para além dos obstáculos e das dificuldades. A sua energia hiperactiva (como diz a J.) é algo que se sente na forma como constantemente procura novas ideias para resolver os problemas com que se depara no dia-a-dia de trabalho. Sem dúvida, um exemplo de criatividade e perseverança para as suas filhas (e para mim).
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