Porque nem tudo são rosas

Aviso à tripulação: Este blogue é um espaço virtual onde partilho a minha experiência pessoal de Serviço Voluntário Europeu com a minha família, amigos e quem demais estiver interessado. Portanto, como devem calcular, apesar de haver coisas maravilhosas, nem tudo são rosas, e penso que os espinhos também devem ser partilhados. Assim sendo, o texto que se segue expõe as minhas emoções pessoais e é assim que deve ser interpretado, não como uma fatalidade. Agradeço que o tenham em conta apenas como um desabafo e uma reflexão, sem julgamentos ou recriminações.

No passado sábado, 16 de Maio, aconteceu pelas 17 horas da tarde, no restaurante Kmečki Hram, em Kostanjevica na Krki, um workshop de culinária italiana e portuguesa. Este evento, realizado no âmbito do câmbio cultural entre o país de acolhimento do projecto de SVE e o país de origem dos voluntários, teve como objectivo promover a interacção entre os habitantes locais e nós, através da confecção de pratos típicos dos nossos países. Mais uma vez, aqui a comida é apenas um pretexto para unir as pessoas e permitir-lhes conhecerem-se e partilharem experiências.

Então, que comida tipicamente portuguesa tentei levar à mesa dos eslovenos? Uma sopa de caldo verde, pastéis de bacalhau e peixinhos da horta, acompanhados de salada. Para sobremesa fiz previamente, no dia anterior, um pão-de-ló de Alfeizerão, receita de família do bolo da minha terra.

Tudo isto parece muito bonito e simples. E talvez o seja na verdade, mas não foi assim que senti e vivi este momento. Das vezes anteriores em que cozinhei para pessoas na Eslovénia, utilizei sempre a cozinha do nosso apartamento, e não tinha mais pessoas a quem explicar receitas e outras curiosidades. Como foi a primeira vez que fizemos um evento deste género, eu não sabia quais seriam as condições que ia encontrar. Na minha cabeça, as coisas aconteceriam de outra maneira, começando logo na compra dos ingredientes, que não são os mesmos que se encontram em Portugal: Nós poderíamos utilizar o espaço da cozinha do restaurante, servirmo-nos dos utensílios básicos, ter acesso a água e a um fogão grande, e as pessoas teriam espaço para poderem ajudar-nos a confeccionar os pratos. No decorrer de todo este processo, claro, teria lugar o convívio entre todos os presentes para, no final do workshop (que tinha previsto uma duração média de duas horas), se saborear o resultado das nossas experiências culinárias. A esta altura, poderíamos colocar também música típica dos nossos países e, quem sabe, para os mais desenvoltos, abrir a pista de dança. Isto, no meu pensamento. Como podem ver, eu tinha o filme todo feito do princípio ao fim.

A realidade com que me deparei foi diferente: Não tínhamos cozinha, mas tínhamos um espaço ao ar livre – muito bonito, diga-se de passagem -, com um fogão improvisado que demorava enormidades de tempo a cozinhar (só para fazerem uma ideia, uma panela pequena com menos de metade de água lá dentro demorou duas horas para levantar fervura), sem água para podermos lavar os legumes (claro que as pessoas perceberam que isto era importante e rapidamente nos desenrascaram grandes panelas com água limpa), sem luz que não fosse a natural, com bacias partidas que não nos permitiam colocar líquidos lá dentro… Enfim. Gerir pessoas, explicar-lhes como confeccionar pratos que elas não conhecem, numa língua que não é a nossa, explicar-lhes o porquê de fazermos assim e não de outra forma, ao mesmo tempo que se tem de improvisar tudo, porque os ingredientes são diferentes dos originais da receita e porque todas as condições físicas com que podemos contar não são as melhores, tornou-se algo de assustadoramente stressante para mim. Adoro cozinhar, experimentar receitas, recriar receitas, inventar receitas, saborear e apreciar novos aromas, texturas e paladares, mas resigno-me à insignificância da minha modesta cozinha. Jamais num restaurante.

Como se isto não fosse mau o suficiente, os meus pastéis de bacalhau (sem bacalhau, que não havia à venda, e portanto usei um outro peixe que parecia filete) não puderam ser servidos, porque não os consegui secar o suficiente antes de irem para a frigideira, e acabaram por derreter no óleo. Apenas pude fritar um pouco da massa dos peixinhos da horta, porque os legumes demoraram tanto tempo a cozer que quando a massa estava pronta já era tão tarde que as pessoas tinham ido embora. E o caldo verde, que era mais amarelo que outra coisa, porque aqui não encontrei couve galega, estava insonso. Na Eslovénia também não se vendem as tradicionais chouriças portuguesas, pelo que tive que improvisar com uma espécie de salame de carne.

À medida que o tempo passava, as minhas expectativas ficavam mais e mais defraudadas e a minha moral cada vez mais em baixo. Só me apetecia mandar tudo ao ar e ir gozar o resto da festa com as pessoas que estavam presentes. Mas não foi isso que fiz – acho que não teria sido má ideia se o tivesse feito. Pelo contrário, esgotei todas as minhas energias em tentar resolver os problemas com a comida. Afastei-me das pessoas, porque tive que levar os trainecos todos para a cozinha e pedir ajuda a um profissional. Perdi o convívio e não consegui fazer com que a comida estivesse pronta em condições e a horas decentes. A minha revolta era de tal maneira colossal que não permitia que ninguém me dirigisse a palavra, com medo de me desfazer em lágrimas, e no final também não os consegui enfrentar. Isolei-me e fui chorar para um canto escuro do restaurante. Fui apanhar ar durante tempos infinitos. Queria desaparecer, porque não conseguia enfrentar o facto de não ter correspondido aos meus próprios objectivos. O problema não era com as outras pessoas – essas, felizmente, percebi durante todo o tempo que realmente estavam envolvidas e a desfrutar do processo, o que para mim foi o meu maior alento. O problema era comigo. Eu que estava ali não apenas enquanto “Inês”, mas enquanto “Inês que vem de Portugal” e que está a fazer qualquer coisa na “Terra Vera” – não só representava um país, como também a nossa Organização, que investiu tempo e dinheiro na preparação deste evento. Eu, e mais ninguém, coloquei este peso e esta responsabilidade sobre mim própria. O que é que ganhei com isso? Não estive com as pessoas que, tão generosa e interessadamente, nos acompanharam. Não pude desfrutar com elas aquele momento. Não desfrutei nem um pouco daquele momento, em momento nenhum. Talvez a única coisa boa foi ter chorado – sim, que chorar também pode ser libertador.

Fui cobarde. Fui infantil. Estava triste, desapontada, desiludida. Apesar de conseguir perceber que o mais importante ali seria engolir o orgulho e partilhar a minha presença com as outras pessoas, e viver com elas aquele evento, não consegui evitar a necessidade de ficar sozinha e, literalmente, fugir dali. Assim o fiz, mas agora sinto que lhes devo um pedido de desculpas e de esclarecimento, que, no fundo, é este texto. Naquele momento, ainda que tivesse podido contar com o apoio importantíssimo de algumas pessoas para cozinhar, senti-me sem suporte emocional, e a descarga de energia foi brutal, como uma tempestade.

Esta é a minha visão da história. Recomendo a mim própria, para o futuro, que reconsidere as expectativas que crio, tendo em conta as condições que posso vir a encontrar e que, por vezes, são imprevisíveis. O mais importante ali foi o que eu perdi. Não era o resultado final, não era a comida em si. Era o facto de as pessoas – que por sinal gostam bastante de nós e nos acarinham constantemente -, poderem conviver connosco, enquanto nos conheciam melhor e nós a elas, era o reforçar de laços interpessoais. Talvez da próxima vez me consiga focar mais em viver o momento presente e desfrutar do processo, mesmo com os seus altos e baixos, mesmo que os planos saiam furados. Há sempre uma lição a retirar de cada experiência.

Caso queiram partilhar as vossas ideias ou outras experiências, ou deixarem as vossas opiniões ou recomendações, tomem este espaço como vosso também. Eu agradeço.
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