Fim-de-semana a 4: Trieste, Koper, Rovinj e Pula

(Original do texto em itálico publicado aqui.)


Rovinj, Croácia. Como escreveu a S. algures no meu telemóvel a propósito desta aventura na Eslovénia – não sei muito bem como, nem imagino quando – «as asas servem para voar».


Sair fora da zona de conforto, seja lá o que isso for, pode ser um processo bastante doloroso e complicado. Há dias em que só apetece agarrar a almofada e esconder a cabeça debaixo dos lençóis, e outros em que o coração pode explodir a qualquer momento por achar que não cabe nele mais felicidade. Cada um destes episódios é de tal forma intenso que se transforma num ponto do caminho a partir do qual é impossível voltar atrás. As boas recordações resistem, as saudades são resolvidas e as feridas saradas, mas todas constituem uma aprendizagem tão marcante que a vida não vai voltar a ser a mesma. Dizem que é esta duplicidade que faz a experiência valer a pena e que ajuda a alargar horizontes, não é assim? De qualquer dos modos, o desafio não termina aqui. Humildade e confiança surgem como ferramentas absolutamente necessárias para tornar qualquer lição de voo numa espiral crescente de (re)descobertas. E depois? Depois é só preciso deixar o vento fazer o seu trabalho.
 
***
 
Desde que cheguei à Eslovénia que os meus dias se passavam maioritariamente focados em três elementos: o projecto de serviço voluntário europeu, a terra onde ele se vai realizar e as pessoas com quem vou trabalhar. Todos estes elementos são maravilhosos e não trocaria nenhuma destas peças do puzzle por quaisquer outras. Simplesmente a verdade é que, de vez em quando, já começava a sentir a necessidade de “respirar” fora deste ninho. As primeiras semanas foram muito intensas e repletas de mudanças, e para digeri-las preciso de tempo e de espaço, a chamada «mudança de ares». Talvez por isso tenha colocado muitas expectativas em relação ao fim-de-semana de 8, 9 e 10 de Maio.
 
A ideia surgiu do coração impetuoso e do olhar encantado com as paisagens fantásticas da Eslovénia do O. (Espanha), na mesma ânsia de quem tem os dias de vida presos por um fio e, por isso, precisa vivê-los intensamente. Juntamente com o L. (Lituânia) e o A. (Espanha), muitos planos foram feitos e desfeitos mas, no fim, o resultado foi um primeiro contacto com quatro cidades lindas, marcadas pela cultura e pela história, e (muito importante) banhadas pelas águas do mar: Trieste (Itália), Koper (Eslovénia), Rovinj e Pula (Croácia). Todas estas cidades têm um encanto especial e merecem muito ser visitadas. Em algumas delas imagino que até era capaz de lá viver.
 
Cada estrela representa a localização geográfica das cidades que visitámos, respectivamente, Trieste (Itália), Koper (Eslovénia), Rovinj e Pula (Croácia). A marca vermelha localiza Ljubljana (Eslovénia).


Tendo em conta que apenas passámos algumas horas em cada uma das cidades, de nada vale tentar aqui fazer um roteiro turístico. No entanto, para que fique registado como recordação, lembro-me que em Trieste passeámos pela zona portuária (onde vimos pequenas alforrecas a nadar junto ao paradão), passámos pela Piazza Unità, pelo famoso canal e pela Igreja Ortodoxa, pela zona Cavana (onde parámos para provar as bebidas típicas), e, acompanhados pela R. (Itália), andámos de eléctrico ao estilo austro-húngaro, parando em Opicina para apreciar a vista sobre a cidade. Ao final do dia, quando estávamos mesmo de partida para Koper, onde iríamos pernoitar, do lado do mar em frente à Piazza Unità, deparámo-nos com um grupo de imensas pessoas a dançar tango ao ar livre – foi um momento bastante bonito, diga-se, as malas e os casacos todos em molho no centro, e os pares a dançarem em círculo, cada um com a sua paixão.
 
O canal de Trieste. Do lado direito, ao fundo, consegue ver-se a cúpula da Igreja Ortodoxa.
 
A experiência em Koper foi diferente. A L. (Itália) fez-nos uma visita guiada pelas ruas do centro da cidade e passeámos pela zona portuária. Por algum motivo especial, ou talvez não, cruzámo-nos várias vezes com um grupo de pessoas, de todas as idades, a dançar livremente ao som de músicas projectadas pelo altifalante de uma carrinha que as acompanhava (fiquei com a ideia que as pessoas em Trieste e em Koper gostam muito de dançar, e eu até consigo compreender porquê!). Passámos, ainda, por uma feira italiana onde o L., que cumpria o seu 19.º aniversário, decidiu oferecer-nos o doce típico da ilha de Sicília, Cannoli – basicamente é um rolo de uma espécie de massa folhada com queijo ricota no interior, que, para mim, é super enjoativo. Se Trieste nos abriu o apetite para experimentar a água do mar adriático, aqui a nossa vontade começou a intensificar-se. No entanto, ficámo-nos pelo peixe frito e pelas lulas fritas ao estilo calamari, e prosseguimos no nosso caminho com destino a Piran (Eslovénia). Vá-se lá saber o que aconteceu, quando demos por nós, estávamos na fronteira com a Croácia, pelo que já não voltámos atrás.
 
O centro de Koper e o grupo de dança livre (à esquerda). L., O., A., eu e L. (à direita).
 
Não sei como teria sido se tivéssemos visitado Piran, mas ainda bem que chegámos a tempo de visitar Rovinj (lê-se “Róvinie“)! Foi das terras mais bonitas por onde passei, não apenas pela transparência e vivacidade do mar, mas principalmente pela simplicidade que a vida tem naquele lugar. As pessoas, as casas, as ruas, tudo transborda uma beleza singela e única. Depois de vaguearmos pelas ruas de calçada de pedras largas e acinzentadas, com o sol bem alto e um calor formidável, finalmente experimentámos o mar! As praias são diferentes, não têm areia, apenas seixos e rochas onde moram pequenas anemonas e caranguejos, o que não as torna muito confortáveis de pisar para quem não está habituado, mas que confere à água uma limpidez quase cristalina. E a água, hmmm! O mar estava picado, mas não em demasia, o que facilitou bastante a entrada – quase como naqueles dias ventosos na baía de São Martinho do Porto, mas sem o incómodo do vento! Depois do banho ainda passámos pela Igreja de Santa Eufemija, onde estava a decorrer um casamento, e aproveitámos para apreciar a vista no topo da cidade.
 
Rovinj.
 
A chegada a Pula foi já perto do final do dia. Fomos tremendamente bem acolhidos pelos donos do Hostel onde pernoitámos, que nos informaram de um evento qualquer que juntava fotografia e quebrar um record do Guiness, a ter lugar na Arena da cidade (Amphitheater), o que proporcionava entrada livre naquela noite. Bem que decidimos ir até lá, e ainda esperámos na fila, mas acabámos por não entrar. Mas este evento foi um óptimo motivo para sair de casa e explorar a cidade à noite. Apesar de estarmos apenas no princípio de Maio, as ruas, os restaurantes e os cafés estavam a abarrotar de gente, como se estivéssemos em pleno Verão – não quero imaginar como será andar naquelas ruas em Julho ou Agosto. Melhor do que sentir esta vivacidade foi comemorar o aniversário do pequeno grande L., que afincadamente se esforçou durante todo o fim-de-semana por aprender a dizer correctamente palavrões em espanhol. Shame on me que não tirei nenhuma fotografia de Pula!
 
Durante a nossa viagem, fomos abençoados com bom tempo – as iminentes tempestades arranjaram sempre forma de rebentar longe de nós ou durante a noite, enquanto dormíamos. O sol e o calor foram nossos companheiros até ao regresso a «casa» – parece estranho dizer isto assim mas, por mais incrível que pareça, todos concordámos com o seu significado, o nosso lar, com toda a sua essência, é na Eslovénia (pelo menos neste momento).
 
E o fim-de-semana cumpriu o seu objectivo – ainda que apenas possa falar por mim. Foram três dias riquíssimos em vivências e emoções, que me permitiram desligar automaticamente o botão “SVE”. Começo a perceber a importância que tem saber planear e concretizar estas quebras de rotina, estes “respiros” temporários de lugares e de pessoas. Poder manter a mente afastada daquilo que vê todos os dias, a toda a hora, permite-lhe olhar com novos olhos as mesmas coisas, talvez mesmo vê-las de uma perspectiva diferente, o que acaba por contribuir imenso para a beleza do processo de constante (re)descoberta e curiosidade. É impossível ficar aborrecido quando nos sentimos motivados para o que estamos a fazer. Por fim, mas não menos importante, não podia ter tido melhores companheiros nesta viagem, foi facílimo conviver com eles durante este período, e só lhes tenho a agradecer por tão bons momentos e recordações que me proporcionaram.
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