On-arrival Training em Bled

A formação à chegada (uma tradução livre de “On-arrival Training”) é o momento em que voluntários acabados de chegar se reúnem no país de acolhimento do seu projecto SVE, permitindo reflectir e preparar os próximos meses de trabalho voluntário, bem como construir uma rede de suporte constituída por outras pessoas que estão a viver uma experiência semelhante à nossa. Assim sendo, ao longo de cada ano podem existir vários On-arrival Trainings, dependendo sempre do número de voluntários acabados de chegar – este “acabados de chegar” às vezes pode querer referir-se a um espaçamento de dois meses, por exemplo. No meu caso, o On-Arrival Training realizou-se uma semana depois de ter aterrado em terras Balcãs.

Portanto, o nosso On-arrival Training decorreu entre os dias 20 e 24 de Abril, na lindíssima cidade de Bled.

Área geográfica de Bled.

Bled é um município com cerca de 8.000 habitantes, situado na zona noroeste da Eslovénia, muito perto da fronteira com a Áustria. Nesta cidade existe o blejsko jezero (lê-se “bleisko iezero“, que significa “lago Bled”), um belíssimo lago natural de água cristalina com uma pequena ilha integrada e, ainda, o castelo mais antigo da Eslovénia, que é possível ver-se a partir do lago.

Bled fica a, aproximadamente, 40 minutos de carro da capital Ljubljana.
Aqui na Eslovénia, costuma dizer-se que o país é tão pequeno que facilmente se chega a todo o lado. Bom, isso é mais ou menos verdade, se viajarmos de carro. No entanto, se a viagem for feita através de transportes públicos podemos estar a falar de várias longas horas dedicadas ao deslocamento. No nosso caso, tivemos de apanhar um autocarro de Kostanjevica na Krki para Ljubljana (lê-se “Lhublhana“) às 7h40, e depois apanhar outro às 10h, de Ljubljana para Bled, o que no total foram cerca de 3h30 de viagem.

Vista do autocarro, a caminho de Bled.
Uma das vantagens de ter passado os primeiros dias em Krško foi, precisamente, a oportunidade de conhecer outros voluntários com os quais acabámos por manter um contacto mais próximo. Caso tivéssemos ido directamente para Kostanjevica mal chegássemos à Eslovénia, provavelmente teríamos tido também a oportunidade de os conhecer mais tarde, mas acredito que seria muito mais difícil estabelecer uma relação de proximidade (falo por mim). Portanto, este On-arrival Training contou com a presença da F. (Itália), minha parceira no projecto “Food for SOULidarity”, e da companhia limitada a alguns dos voluntários de Krško, o F. (França – 50% Italiano), o M. (Turquia), a J. (França), e o D. (Bielorrússia). Encontrámo-nos em Ljubljana e partilhámos a viagem até Bled.

Ao todo, éramos 17 voluntários de vários países – Bielorrússia, Espanha, França, Geórgia, Itália, Letónia, Macedónia, Montenegro, Portugal e Turquia. Os seus projectos de serviço voluntário europeu eram os mais diversos – desde trabalhar com crianças, juventude, famílias, turismo, gestão de projectos, galerias de arte, enfim.

Tentativa de nos localizarmos no mapa da Eslovénia por local de SVE!

Os nossos mentores organizaram uma série de actividades que à primeira vista me fizeram torcer-lhes um bocado o nariz. Todavia, agora que vejo com maior distanciamento, tenho de lhes tirar o chapéu pelas “macacadas” que nos fizeram passar. A maior parte das actividades foi realizada ao ar livre, aproveitando o sol maravilhoso com que fomos presenteados durante toda a semana (excepto no último dia, mas, claro está, foi porque Bled ficou triste com a nossa partida). Para mim foi fantástico, prefiro um milhão de vezes andar à solta ao ar livre do que estar fechada numa sala, por mais bonita que seja. Além do contacto com a natureza, estas actividades de rua requeriam muito movimento, o que para mim também é importante, na medida em que me ajuda a relaxar os músculos do corpo e a fluir, principalmente ao nível da conversação. Diria mesmo que esta conjugação foi a chave fundamental para conseguir sentir-me tão à vontade com pessoas desconhecidas, partilhar um pouco de mim e estar disponível para conhecer os outros. Possivelmente, se a formação tivesse sido toda realizada ao estilo académico de aprendizagem formal, em que entramos às X horas e saímos às Y horas, todo o tempo sentados a ouvir alguém falar sobre um assunto qualquer, o meu corpo estaria muito mais fechado sobre si próprio e eu teria tido muito mais dificuldade em abordar e ser abordada por desconhecidos, ainda que estivéssemos todos ali para o mesmo. Só num dos dias é que todas as tarefas foram realizadas dentro da sala de formação, e foi o dia em que mais sofri – caiu sobre mim uma espécie de neblina que não me deixava pensar com clareza e só me fazia sentir frustração. Muitas mudanças para digerir em muito pouco tempo.

Lago Bled.

No primeiro dia, apesar do cansaço que todos sentíamos por termos dormido pouco, acordado cedo e viajado em transportes públicos, fomos fazer uma maravilhosa caminhada até ao desfiladeiro de Vintgar, e explorar as suas cascatas e paisagens.

O On-arrival Training foi uma experiência muito intensa, cujo principal objectivo foi obrigar-nos a reflectir sobre os nossos motivos para ser voluntári@, quais as nossas expectativas e os nossos receios face ao que vamos encontrar, e em que é que podemos contribuir para o nossos projectos e competências – quer ao nível organizacional, quer ao nível de desenvolvimento pessoal. Entre outras coisas, fomos também confrontados com a tarefa de elaborar um projecto, em menos de 48 horas, que envolvesse os cidadãos eslovenos locais, fora da cidade de Bled, com um orçamento de 5€ por pessoa.
Aqui a coisa começa a ficar engraçada. Pessoalmente, assim que ouvi as condições que tínhamos para realizar o projecto só conseguia pensar «Mas esta gente é toda doida?! Nós nunca vamos conseguir fazer isto!». Como que a ler-me os pensamentos, os mentores lá disseram que os outros grupos anteriores também tiveram de fazer um projecto e que até saíram de lá coisas giras, e eu mudei, ainda que a medo, a minha estratégia, «Caramba! Se os outros conseguiram, nós também vamos conseguir». Formámos o grupo e fomos para a esplanada do Hotel Jelovica (lê-se “Ielovitça“) pensar no que poderíamos fazer. Pensar? Hmmm, não foi tanto assim, pois o D. (Bielurrússia) já tinha a ideia na cabeça! Foi a ideia mais estapafúrdia, engraçada e útil que já ouvi – fazer um mapa de casas-de-banho públicas e gratuitas. Quantas e quantas vezes não precisamos de ir à casa-de-banho mas não sabemos onde ir sem ter de consumir?! Assim surgiu o projecto MaPee.

Radovljica.

Escolhemos Radovljica (lê-se “Radoulhitça“), com aproximadamente 6.000 habitantes, onde no fim-de-semana anterior tinha decorrido um apetitoso Festival de Chocolate, para realizar o nosso projecto. Após uma breve viagem de 15 minutos de autocarro, ficámos a trabalhar durante umas cinco horas na localidade. Só parámos com a certeza de que não havia mais nenhuma casa-de-banho para verificar e até tínhamos uma escala para as avaliar – de entre os nossos critérios podemos contar com o nível de limpeza, a acessibilidade para pessoas em cadeira de rodas ou a presença de cabides para os casacos e malas. Foi uma aventura e pêras, não haja dúvida! Só tenho mesmo que lhes agradecer por ter sido tão fácil trabalhar com eles, por todos se terem esforçado e contribuído para o mesmo objectivo, pelo resultado final, pelo feedback e por me terem proporcionado uma experiência tão positiva!

A equipa MaPee, da esquerda para a direita: D. (Bielorrússia) e de quem surgiu esta brilhante ideia, F. (França), S. (Turquia), G. (Macedónia) e eu em grande plano.

O On-arrival Training em Bled foi, sem dúvida alguma, um momento marcante nesta aventura que está a ser o SVE. Vi-me confrontada com as minhas potencialidades e pontos fortes, mas também com receios que eu nem imaginava ter, e tornar-me consciente destes processos foi, admito, extremamente doloroso (Aqui os eslovenos não são pessoas muito calorosas. Não há cá beijinhos nem abraços quando as pessoas se vêem. Para mim tem sido das coisas mais difíceis às quais me tenho tentado adaptar, e no tal dia em que todas as actividades foram realizadas dentro de sala, não aguentei mais. No final do dia tive de ter um abraço, daqueles calmos mas fortes, que me tranquilizasse e assegurasse de que tudo vai correr bem), mas de uma importância enorme para me sentir preparada para o que virá em frente. Actualmente, mantemos o contacto uns com os outros e a promessa de nos voltarmos a encontrar em breve. A tod@s, o meu mais profundo agradecimento!

O grupo maravilha.

Referências:
Anúncios

Escrever uma nota

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s